Fundação Verde Herbert Daniel

Moderador FVHD

A Educação Ambiental e a necessária modificação das bases culturais da sociedade

Zysman Neiman

A lógica de apropriação dos espaços, dos recursos, dos outros povos, de dominação e de destruição não começou a se desenvolver a tão pouco tempo, com a Revolução Industrial, como se costuma pensar. Se retomarmos nosso histórico, veremos que no mundo ocidental, a ascensão e queda de cada civilização que nos antecedeu estão marcadas por essa mesma lógica. A região da Mesopotâmia, que marca o surgimento da primeira grande civilização ocidental, há quase 7 mil anos, era ocupada por exuberante floresta e hoje está deserta.

No curso de nossa história, à medida que os recursos naturais iam se acabando, as civilizações começavam a apresentar sinais de esgotamento e declínio, e buscavam perpetuar-se expandindo suas fronteiras, apropriando-se de novos recursos e de novos povos. Problemas ambientais e “ambientalistas” preocupados com os destinos de suas terras, sempre existiram.

A grande diferença é que hoje o planeta já foi inteiramente tocado. As opções tecnológicas dos últimos séculos são mais agressivas e com potencial destruidor muitíssimo maior. A população humana cresceu e seus territórios estão muito próximos ou sobrepostos, algumas vezes. A degradação ambiental está cada vez mais intensa.

Sabemos que os problemas ambientais não estão isolados: há degradação nas relações sociais e também na esfera individual. As relações do indivíduo consigo mesmo estão desequilibradas e igualmente problemáticas. Tudo isso é parte de um mesmo problema.

Se as relações com a natureza de cada povo são instituídas em sua cultura ao mesmo tempo em que são estruturadas as relações sociais e as individuais, faz sentido pensar que o inverso obedece a mesma lógica. Não conseguiremos retomar o equilíbrio em nossas relações ambientais se não reformularmos nossas relações internas, de cada indivíduo consigo mesmo e com os seus concidadãos. Afinal, são os modos de vida humanos individuais e coletivos que estão em progressiva deterioração.

O termo Educação Ambiental surgiu na ocasião da Primeira Conferência Mundial sobre o Meio Ambiente Humano e Desenvolvimento, que aconteceu em 1972, em Estocolmo, na Suécia. A declaração elaborada nessa reunião representou o início da inclusão das questões ambientais nos relacionamentos entre países industrializados e em desenvolvimento. Aí foram também “lançadas as bases de uma legislação internacional do meio ambiente, onde se uniu a proibição do armamento atômico aos grandes problemas ecológicos, e onde a discriminação racial, o apartheid e o colonialismo foram condenados.” (Acot, 1990: 168). As questões ambientais desde essa época trazem à tona o questionamento da postura que considerava a natureza como meio e não como um fim em si, propondo uma reversão dessa situação.

A Educação Ambiental aparece como elemento essencial para o combate à crise ambiental no mundo, devido à urgência da necessidade do homem reordenar suas prioridades (Dias, 1992: 26), e sua definição, ao longo de sua história, sofreu diversas transformações desde que o termo foi sugerido na Conferência de Estocolmo em 1972.

MEDINA & SANTOS (2000) a define como um processo que consiste em propiciar às pessoas uma compreensão crítica e global do Ambiente, para elucidar valores e desenvolver atitudes que lhes permitam adotar uma posição consciente e participativa a respeito das questões relacionadas com a conservação e adequada utilização dos recursos naturais.

Loureiro (2002), tem uma compreensão similar da Educação Ambiental, entendendo-a como uma práxis educativa e social que tem por finalidade a construção de valores, conceitos, habilidades e atitudes que possibilitem o entendimento da realidade de vida e a atuação lúcida e responsável de atores sociais individuais e coletivos na conservação do ambiente.

Em 1987, a Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD) publicou o documento intitulado “Nosso Futuro Comum” (Our Commom Future), mais conhecido como Relatório de Brundtland que foi quem promoveu a difusão do termo e do conceito “desenvolvimento sustentável”. O desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras satisfazerem suas próprias necessidades.

O inevitável processo de mudança em direção a formas sustentáveis de desenvolvimento determinará o curso futuro da civilização humana e modelará o estilo de vida. O gerenciamento ambiental envolve a passagem do pensamento mecanicista para o pensamento sistêmico. Um aspecto fundamental dessa mudança cede lugar à percepção do mundo como sistema vivo. Essa idéia diz respeito à percepção da natureza, do organismo humano e da sociedade. A mudança de paradigma em relação ao estilo de vida terá de acontecer, seja de forma planejada ou imposta pela necessidade. “A consciência ecológica somente surgirá quando aliarmos ao nosso conhecimento racional uma intuição da natureza não-linear de nosso meio ambiente” (CAPRA 1982).

As necessidades do ser humano na sua relação com a natureza devem corresponder à idéia de minimizar os impactos causados pelas desigualdades sociais e ambientais. Uma educação voltada a este fim pode de fato contribuir com a conservação dos recursos naturais e os ecossistemas.

A Agenda 21, documento aprovado na Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, na Rio-92, estabelece ações de gestão ambiental que visam alcançar, também, a conservação. Uma das considerações importantes para a conquista do desenvolvimento sustentável, tendo como suporte a Agenda 21, é o processo participativo que amplie oportunidades de Educação Ambiental continuada e extensiva, de modo a articular propostas para superar o descompasso entre o discurso e a prática.

Apesar de suas enormes limitações, a EA expandiu-se pelo planeta criando nichos de maior consciência, informação e responsabilidades, mas que parecem até hoje não “conversar” com a necessidade que as sociedades modernas têm de dominação dos espaços, dos ecossistemas e dos povos, de apropriação e destruição. A lógica da produção industrial, do consumo desenfreado, da descartabilidade, do individualismo impede que os acenos da EA apareçam no grande cenário das relações políticas, econômicas e sociais entre os países e no interior de cada um deles.

É, portanto, um erro pensar que os problemas ambientais podem ser resolvidos em separado. Se as estratégias conservacionistas, principalmente aquelas desenvolvidas por instituições governamentais e não governamentais, se detiverem apenas nas questões pontuais e técnicas, dificilmente atingirão os problemas que pretendem resolver. Para tanto é preciso um trabalho paralelo de Educação Ambiental que se direcione a modificar as bases culturais nas quais nossa sociedade foi moldada. Qualquer proposta de conservação que não esteja atenta a este pressuposto, está fadada ao insucesso em médio ou longo prazo.

Se nossa situação atual vem sendo gestada por um longo percurso histórico, não será do dia para a noite que conseguiremos revertê-la. As mudanças serão lentas e gradativas. Mas há muitas coisas que estão a nosso alcance e que poderiam ser aplicadas de imediato. No entanto, nossos hábitos e nossa pressa nos impedem de incorporá-las. Parar para refletir e analisar nossa ação sobre o mundo é hoje fundamental para encontrarmos saídas eficazes para os nossos problemas.

O desequilíbrio psico-sócio-ambiental atual nada mais é que o reflexo de nossa própria maneira de pensar e ver o mundo. Por termos conquistado todo o planeta, podemos dizer que cada paisagem da Terra é o reflexo de nossa atuação sobre ela. E se nossa atuação é definida por nosso pensar, cada paisagem reflete a relação que temos com o mundo que nos cerca. Se a paisagem das cidades é feia, somos nós que autorizamos que ela ficasse assim. Nosso desequilíbrio externo reflete o interno. Nossas ações não serão eficazes se não atuarmos em todos os níveis em que emergem os problemas.

Sem uma reapropriação de nossa verdadeira humanidade, continuaremos a devastar o planeta, sujeitos a uma busca insaciável de segurança e controle (Unger, 2001: 43). A dessacralização da natureza e a proposta de um relacionamento sujeito-objeto elimina as possibilidades de um diálogo entre seres humanos e natureza pois não pode haver diálogo entre um sujeito e um objeto.

Considerando-se as múltiplas facetas da questão ambiental, é necessário revermos qual a verdadeira missão da Educação Ambiental.

Se ela veio para alimentar nossa esperança de construir um mundo novo, mais harmônico e pacífico, ela precisa ajudar os indivíduos a compreender a realidade em suas múltiplas dimensões, preparando-os para serem livres para criar caminhos realmente novos. Aqui está uma das chaves para que de fato se alcance a conservação da natureza.

Se ela surgiu como um dos instrumentos para viabilizar um desenvolvimento sustentável, ela deve considerar que os problemas a ele relativos “caracterizam-se, entre outras coisas, por sua complexidade.

Essa complexidade deve ser transmitida e compreendida, ainda que isso não seja fácil nem, necessariamente, agradável. A simplificação de problemas complexos, muito freqüente hoje em dia em programas de conservação ambiental, não é apenas uma manobra fraudulenta na medida em que dá uma falsa representação da realidade, mas também um ato de irresponsabilidade de parte daqueles que compreendem os problemas” (UNESCO, 1999). Acreditar ser possível um projeto conservacionista sem um concomitante trabalho educativo comete esse erro.

Alguns caminhos amplamente adotados, tais como ações para a proteção dos ecossistemas, criação de corredores ecológicos, coleta dados (biológicos, socioeconômicos, informações cartográficas, imagens de satélites), avaliações detalhadas do grau de ameaça e biodiversidade e campanhas, apesar de absolutamente fundamentais, não são suficientes para engendrar os processos de profunda transformação de que estamos precisando.

Além destas, é necessário o desenvolvimento de outras estratégias que ajudem as pessoas a irem além, a pensar diferente, a modificar a estrutura de pensamento à qual estamos condicionados, formatados. A desfazer a nebulosa barreira sujeito-objeto, sob a qual estamos acostumados a nos relacionar com o mundo.
É evidente que, dada a complexidade das questões humanas e se consideramos que nosso modo de vida atual levou alguns milênios para se constituir, temos que aceitar que as mudanças deverão ser lentas e gradativas. Elas são, de qualquer forma, inevitáveis.

Ao mesmo tempo, podemos pensar que somos capazes de fazer muito mais do que temos feito. Ainda agimos condicionados a um mesmo modo de pensar, repetimos comportamentos já existentes há mais de dois mil anos atrás.

Então, não seria essa a verdadeira missão da EA? Encontrar os caminhos para levar os indivíduos a novas maneiras de pensar? A livrarem-se de seus condicionamentos familiares, históricos, culturais?
Senão, como pensar uma nova sociedade? Como sair desse círculo vicioso? Como solucionar os problemas ambientais ou mesmo atenuar os seus efeitos? Como, enfim conservar a natureza?
Einstein dizia que não podemos resolver um problema permanecendo no mesmo nível de consciência em que o problema foi gerado. Para tratar dos problemas ambientais temos que alcançar uma nova perspectiva. Para criarmos uma sociedade sustentável precisamos de psiques sustentáveis. Só a Educação

Ambiental pode proporcionar este salto e de possibilitar a conservação dos nossos recursos naturais, objetivo audacioso almejado por tantos indivíduos e organizações neste início de terceiro milênio.

Referências bibliográficas
• ACOT, Pascal. História da Ecologia. Rio de Janeiro: Editora Campus, 1990.
• CAPRA, Fritjof. O Ponto de Mutação. Tradução Álvaro Cabral. São Paulo: Ed. Cultrix,1982.
• DIAS, Genebaldo Freire. Educação Ambiental- princípios e práticas. São Paulo: Editora Gaia, 1992.
• LOUREIRO, C.F.B. Educação ambiental e movimentos sociais na construção da cidadania ecológica e planetária. Educação ambiental: repensando o espaço da cidadania. São Paulo: Cortez Editora, cap. 3, p.69-107, 2002.
• MEDINA, N.M.; SANTOS, E. da C. Educação Ambiental: uma metodologia participativa de formação. Petrópolis: Vozes, 231p., 2000
• UNESCO, Educação para um futuro sustentável: uma visão transdisciplinar para ações compartilhadas, “Conferência internacional sobre o meio ambiente e sociedade: educação e conscientização pública para a sustentabilidade”. Brasília: Ed. IBAMA, 1999.
• UNGER, Nancy Mangabeira. Da foz à nascente-o recado do rio. São Paulo: Eds Cortez/Unicamp, 2001.
Nota:

Zysman Neiman
Professor da Universidade de São Carlos (UFSCar)
Diretor Presidente do Instituto Physis – Cultura & Ambiente
Autor de diversos livros sobre a questão ambiental.
e-mail: zysman@physis.org.br

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