Fundação Verde Herbert Daniel

Por Patrus Ananias

Durante muitos anos escutamos falar de políticas de combate à seca no Brasil, uma expressão tão contraditória e equivocada que não vai além da retórica, mas acabou se incorporando no senso comum como algo dado. Ainda quando disputava a última eleição, o presidente Lula fez durante um debate o alerta a esse equívoco histórico, ao ser perguntado sobre suas propostas para "combater a seca". Ele então respondeu que nunca vira algum governante do Canadá, por exemplo, anunciar que combateria a neve porque não se combate uma condição climática, mas atacam-se suas conseqüências. Inútil combater a natureza, o que nos cabe é saber conviver com ela e interferir de modo a aproveitar suas possibilidades e superar os desafios que ela impõe.

Assim temos trabalhado no semi-árido brasileiro, integrados numa grande ação de governo, em parceria entre ministérios, instituições governamentais e não governamentais, empresas, universidades, igrejas dentre outros, para combater a desigualdade que, essa sim, tem tornado ainda mais dura a realidade da seca para as pessoas e famílias da região. São 2,4 milhões de famílias pobres, vivendo nos 1.008 municípios do semiárido distribuídos nos estados de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Minas Gerais. Desse total, só com o Bolsa-Família chega a 67%, o que corresponde a 1,6 milhão de lares atendidos, recebendo um repasse mensal de R$ 71 em média, um dinheiro que ajuda a melhorar a comida e a comprar material escolar.

Em torno desse programa, desenvolvemos outros programas, como o de compra e distribuição de leite - que compra o leite do pequeno produtor da região e distribui para famílias e instituições de caridade - e o de construção de cisternas para captação de água de chuva - cada cisterna é capaz de armazenar água suficiente para uma família atravessar oito meses de seca. Somados a esses programas, há ainda as bolsas do Agente Jovem e do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil e os pagamentos dos Benefícios de Prestação Continuada (BPC), as Casas da Famílias e programas de inclusão produtiva e de segurança alimentar. Todos unidos pelo objetivo de dar o apoio necessário às famílias pobres para que elas possam sair do círculo vicioso da pobreza e promover o círculo virtuoso do crescimento.

Percebe-se que o nosso foco não é a inútil lida contra a natureza porque essa não podemos mudar. O flagelo intensificado pela seca é muito mais provocado pela dívida social histórica que aumentou a desigualdade na região do que pela falta de chuva. Nosso foco, o que queremos e estamos mudando, está medido por pesquisas como as feitas pela Unicef. Das crianças que vivem no semiárido, 75% vivem em famílias pobres (em alguns municípios esse índice chega a 90%!), 46% delas são analfabetas e 42% não têm acesso à água potável.

O semi-árido concentra o maior número de vítimas da nossa dívida social. São famílias e às vezes comunidades inteiras castigadas pela falta de oportunidade para crescer em condições dignas. Essa realidade só muda quando se investe no que ela tem de mais forte, que é sua gente. São as pessoas que vivem nesse lugar é que vão modificá-lo, mostrar e explorar todas as suas possibilidades. As ações do governo federal, em parceria com os governos estaduais e municipais e com organizações governamentais e não governamentais, estão mudando a face do semi-árido e abrindo os caminhos da esperança para os bravos sertanejos de Euclides da Cunha.

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