Fundação Verde Herbert Daniel

por Francisco A. Romanelli
 
Um dos problemas ambientais de grande potencial de danos a médio e longo prazo é a insidiosa desertificação. Como o próprio nome indica, a desertificação é um processo de esterilização do ambiente afetado. A imagem de um ambiente desértico não é novidade para qualquer pessoa de cultura mediana ou que tenha atravessado os primeiros anos escolares do ensino básico. Fala-se em deserto e logo vem à mente as paisagens arenosas, quase estéreis e inóspitas do grande Saara, o maior do planeta. Não é esse conceito de deserto que se pretende destacar aqui, mas sim aquele que teve origem em ações humanas.

O grande erro do raciocínio civilizado a respeito é exatamente esse: não conceber a grandiosidade do problema nas pequenas, múltiplas e espalhadas áreas de desertificação que brotam em todos os lugares, na imensidão do planeta, onde a conservação do solo não é parte da preocupação dos habitantes locais.

Diz-se aqui conservação do solo uma vez que o foco dessa pequena análise é exatamente o deserto que nasce nas regiões secas, deixando-se por ora a denúncia das áreas aquáticas, de corpos hídricos menores, rios e oceanos, que têm sido esterilizadas pela ação direta do ser humano.

Os desertos somados ocupam cerca de 1/3 da superfície seca do planeta, o que representa mais de 51 milhões de quilômetros quadrados de solo. Grande parte deles tem seu ponto inicial nas ações típicas do ser humano.Em razão do descuido na preservação do solo, nascem e crescem, insidiosamente, geralmente sem que sejam percebidos, os pequenos e perniciosos desertos domésticos.

De onde vêm? Para onde vão?

Esses nocivos desertos têm início em ações simples, habitualmente consideradas necessárias para a sobrevivência humana: desmatamentos para ocupação, construção, plantio e pecuária. O solo desnudo é presa fácil para processos erosivos, provocados habitualmente pelas chuvas e auxiliados pelos ventos. A terra descoberta é levada de roldão pelos volumes de água das precipitações. No meio desse processo também é levada a verdadeira riqueza produtiva do solo: a cobertura de compostos orgânicos que lhe dão fertilidade. E um pequeno deserto começa a aparecer.

Mas não somente os locais facilmente erodíveis são vítimas da desertificação. Desde a deposição de resíduos produzidos pelos humanos, como as áreas transformadas em lixões ou aterros, até o pisoteio provocado pela atividade do gado, uma enorme gama de intervenções quebra o frágil equilíbrio da proteção verde do terreno e cria uma chaga que nem sempre tem condições de se cicatrizar. Um bom exemplo disso são as queimadas ditas controladas. Com o interesse de limpar o solo para plantio de culturas vegetais necessárias ao consumo humano, ou pastos necessários à sobrevivência da pecuária, utiliza-se do fogo como instrumento de capina. A alta eficácia e o baixo custo do processo motivam essa antiga prática rural extremamente danosa ao solo.

O empobrecimento da fertilidade da área é rápido, porém gradual, dando de início ao proprietário a falsa ilusão de que o sistema é eficaz. Quando chega a se conscientizar dos danos que provoca, de modo geral já é muito tarde e a área já se tornou estéril e improdutiva.

O ciclo de desertificação é, por outro lado, um círculo vicioso: qualquer processo de redução da cobertura vegetal diminui a fertilidade e provoca o empobrecimento produtivo da área, tornando-a sempre mais suscetível aos processos erosivos e cada vez menos protegida. Como conseqüência, paulatinamente sem vida. A morte do solo dá oportunidade ao surgimento de um deserto que, como uma ferida infectada, vai quase sempre se expandindo para horizontes sempre mais distantes.

Os seres humanos, cegos à sua interferência, de um modo geral abandonam aquela gleba destruída e vão reiniciar o processo em outro local, dando início a um novo movimento degenerativo.

A situação ameaça o equilíbrio ecológico do planeta e, nessa esteira, a sobrevida da espécie e a sadia qualidade de vida que se pretende destinar ao homem. Por isso, inúmeros encontros internacionais têm ocorrido desde os anos setenta, no final do século XX, para avaliação da extensão do problema, sua evolução e os mecanismos de luta contra o processo de desertificação. Esses encontros culminaram com a aprovação e assinatura, por mais de 160 países, em 17 de junho de 1994, em Paris, da Convenção Mundial de Luta contra a Desertificação.

Por esse motivo, o dia 17 de junho passou a ser considerado o dia mundial de combate à desertificação. Não é uma data que incentiva qualquer comemoração, mas incita a uma luta que emerge como uma das mais importantes batalhas ambientais: a preservação do solo.

Francisco A. Romanelli é ecologista e educador. Presidente da Associação Ecológica Vertente e Vice-Presidente da Associação de Proteção Ambiental de Varginha (MG) e Região

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