Fundação Verde Herbert Daniel

(Extraído da Carta de São Pedro)

Diz-nos o programa do PV com relação à saúde: “A crise da saúde passa por uma mudança radical da mentalidade dominante que a considera como uma mercadoria da indústria farmacêutica. Deve-se dar ênfase à medicina preventiva, sanitarista e à eliminação das agressões ambientais, com maior espaço para as terapias alternativas, evitando-se a doença, educando-se a população quanto à higiene e à alimentação sadias, socializando-se o saber-saúde.”
O autor Lester Brown, do World Watch Institute, na obra “Eco-economia” (2003) faz interessante análise sobre o transporte e suas relações com a saúde da população. Diz o autor:

“As cidades, especialmente aquelas centradas no automóvel, privam as pessoas do exercício físico necessário, criando-se um desequilíbrio entre a absorção e o dispêndio de calorias. Conseqüentemente, há um crescimento acelerado da obesidade tanto nas nações industrializadas quanto nos países em desenvolvimento. A população acima do peso nas nações industrializadas, na maioria adultos, juntamente com as fileiras cada vez maiores de pessoas acima do peso nos países em desenvolvimento impulsionaram a população mundial acima do peso para 1,1 bilhão de pessoas. Os epidemiologistas vêem isso hoje como uma ameaça de dimensões histórias à saúde pública, uma fonte crescente de doenças cardíacas, pressão alta, diabete e maior incidência de várias formas de câncer”.

A outra característica classificada como “irritante” das cidades centradas no automóvel é “a poluição persistente, afetando tanto os usuários quanto os não-usuários de carros. A bicicleta é o antídoto ideal para a poluição, especialmente em percursos curtos. Os motores dos automóveis queimam com menor eficiência na ignição. Logo que aquecidos, se tornam mais limpos, mas, a essa altura, as viagens curtas já se acabaram. Embora a atenção pública global esteja concentrada nas 885.000 fatalidades anuais relacionadas aos veículos, essa cifra é ofuscada pelas três milhões de vidas urbanas perdidas anualmente no mundo devido à poluição atmosférica”.
Para Lester, entre as conseqüências do amplo desenvolvimento de baixas densidades populacionais urbanas estão à dependência do automóvel, impostos territoriais crescentes, percursos mais demorados, agravamento da poluição atmosférica e, acima de tudo, a frustração porque a densidade populacional é muito baixa para se viabilizar um sistema eficaz de transporte coletivo. O automóvel prometeu mobilidade e cumpriu principalmente no ambiente rural. Mas, à medida que as sociedades se urbanizaram, o conflito inerente entre o automóvel e a cidade veio à tona, com quase todas as cidades do mundo hoje afligidas com congestionamentos, ruídos e poluição atmosférica veicular. A velocidade média de um carro em Londres é quase igual à de um coche a cavalo, um século atrás”.
Ele segue escrevendo que “os sistemas de transportes urbanos baseados numa combinação de vias férreas, ciclovias e calçadas para pedestres nos proporcionam o melhor de todos os mundos possíveis, os transportes de baixo custo e um meio ambiente urbano sadio. As grandes cidades invariavelmente necessitam de sistemas ferroviários que proporcionem uma mobilidade adequada. A escolha entre sistemas metroviários subterrâneos, transportes leves sobre trilhos na superfície, ou ambos, dependerá, em parte, do tamanho da cidade”.
“A bicicleta proporciona a versatilidade para complementar o sistema ferroviário. Suas atrações são várias: alivia o congestionamento, diminui a poluição, reduz a obesidade, aumenta o preparo físico, não emite dióxido de carbono prejudicial ao clima e é acessível para bilhões de pessoas que não podem comprar automóveis”.
“As cidades, em muitas partes do mundo, estão se voltando para as bicicletas para vários usos. Nos Estados Unidos, 96% das delegacias que atendem mais de 250.000 habitantes realizam hoje rondas em bicicletas. Policiais em bicicletas são mais produtivos nas cidades devido, em parte, a maior mobilidade e poderem chegar à cena de um acidente ou crime com maior rapidez. Eles realizam 50% mais prisões por dia do que policiais em viaturas. Em termos de despesas, o custo de operar uma bicicleta é insignificante, comparado ao de um automóvel. A maior produtividade com menor custo é uma fórmula vitoriosa nas mentes de muitos gestores urbanos. E um melhor relacionamento comunitário com policiais em bicicletas proporciona um bônus adicional”.
“A chave para se concretizar o potencial da bicicleta é criar um sistema de transportes voltado à bicicleta. Isso significa proporcionar ciclovias exclusivas nas ruas, desenhadas para atender tanto os que se dirigem ao trabalho quanto os que buscam o lazer. Além disso, o uso da bicicleta é incentivado pela disponibilidade de estacionamentos e chuveiros nos locais de trabalho. Entre os países industrializados líderes no planejamento desses sistemas estão os holandeses, dinamarqueses e alemães”. “A Holanda incorporou uma visão do papel da bicicleta num Plano Diretor de Bicicletas. Além de criar ciclovias em todas as cidades o sistema também favorece mais ciclistas do que automóveis em vias preferenciais e semáforos. Estes liberam primeiro os ciclistas antes dos carros. Cerca de 30% de todos os percursos urbanos na Holanda são realizados de bicicleta. Isso se compara a 1% nos Estados Unidos. Tanto a Holanda quanto o Japão se engajaram na integração das bicicletas aos serviços ferroviários urbanos, disponibilizando estacionamentos em todas as estações, facilitando a ida do ciclista à estação”. “A Espanha, um dos últimos países a aderir à bicicleta, inaugurou 80 novas ciclovias durante o ano de 2000, totalizando hoje 965 quilômetros de extensão”.
Conclui o autor: “A combinação da ferrovia com a bicicleta, e especialmente sua integração num sistema único de transporte, torna as cidades muito mais habitáveis do que aquelas centradas no automóvel. Os ruídos, a poluição, os congestionamentos e a frustração são todos aliviados. A população e o meio ambiente ficam mais saudáveis”.

No texto, “Dependência Química”, o palestrante Marcelo Ribeiro de Araújo, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas da UNIFESP, escreve “as substâncias capazes de alterar o funcionamento psíquico são velhas conhecidas.. há registros nos desenhos neolíticos e nos primeiros escritos da antiguidade”. “As substâncias psicoativas se diversificaram e se espalharam e estima-se que o tráfico de drogas movimenta hoje 300 bilhões de dólares por ano, ou 10 % da economia mundial”. Marcelo Ribeiro, que iniciou seu texto com poesia de Álvaro de Campos conclui: “o que acontece num ambulatório de dependência química não é nada romântico, nem poético”. “O nosso papel no tratamento do dependente é o de ajudá-lo a retornar a realidade dos mortais... ele necessita mais do que um médico, psicólogo, terapeuta ocupacional ou enfermeiro: precisa de um consultor confiável, de alguém que olhe para a sua vida, veja como ela está e lhe ensine a cultivar os frutos que poderá ingerir quando o seu suprimento de frutos proibidos acabarem”.

Já em “Qualidade de Vida, transporte e saúde”, os médicos e filiados ao PV de Diadema, Dr. Albino Cardoso Pereira Neto e Dra. Sandra de Castro Caponetti, nos dizem: “A crescente utilização dos transportes, em especial rodoviário, em termos do número e da duração dos deslocamentos tem provocado impactos no ambiente, nos recursos naturais e na saúde humana”. “O stress, o sedentarismo, a poluição e o engarrafamento são males urbanos de implicação física. A inatividade física associada aos transportes tem graves conseqüências na saúde: o risco de doenças cardíacas, a diabetes, a obesidade, as doenças respiratórias, as alergias, atacam lentamente e de forma invisível”. E concluem: “De acordo com a OMS – Organização Mundial da Saúde – meia hora de exercício físico diário, como andar a pé ou de bicicleta, reduz o risco de se contrair uma dessas doenças em 50 %”.

Em “Planejamento Urbano e a qualidade de vida”, o arquiteto e membro do PV da Capital, Edison Ivanov, afirma que “o mundo se volta aos valores naturais onde a vida é o foco principal... um novo modelo administrativo nascerá das demandas que estão sendo geradas: lazer, cultura, educação, novas profissões, sustentabilidade na transformação dos recursos e consequentemente a qualidade de vida, com a distribuição equilibrada dos resultados”.

Alguns outros pontos aparecem na relatoria do grupo temático, realizada por Romildo Campello, Secretário Estadual das Relações com o Terceiro Setor do PV-SP, em relação às palestras que merecem ser registrados:
O palestrante Dr. Albino Cardoso afirma que “os efeitos fisiológicos dos altos níveis de ruídos, associados em parte aos meios de transporte, são altamente prejudiciais para a saúde e muitas vezes passam desapercebidos pela população, ficando apenas a sensação de irritabilidade, sem, contudo, associá-la a exposição ao barulho”. Ele também destaca que “a qualidade de vida se associa ao bem-estar das pessoas e não apenas à ausência de doenças”.

O palestrante Dr. Marcelo Ribeiro descreve a história do consumo de álcool e drogas e os modelos de tratamento que foram surgindo. “No Modelo Moral, ainda sob a abordagem aristotélica da escolha pessoal, o alcoolismo era considerado um desrespeito social e deveria ser tratado com punição moral. O indivíduo era então exposto em praça pública, algumas vezes dentro de barris de madeira e tinha seu nome publicado numa lista, para que através da publicidade e da humilhação tivesse estímulo para conter o vício”. “Veio então o Modelo da Temperança que ainda trata o vício como escolha pessoal, mas reconhece-se que o álcool causa danos ao indivíduo. Nasce aqui conceitos como o “Beba com Moderação” ainda usado nas propagandas de bebidas. A evolução deste modelo vem do trabalho de Benjamim Rush que cria uma escala para classificar os diferentes níveis de dependência, variando desde o beber ocasional ao alcoólatra. Com este conceito de gradação começa-se a ter uma diferenciação nos graus de dependência. O Modelo Clínico de Magnus Huss completa o conceito da gradação na dependência e crias tratamentos clínicos com internações prolongadas”.

Para o especialista, “O alcoolismo deve ser considerado doença social. As políticas públicas devem vir no sentido de inibir as propagandas que vinculam o consumo a status social e realização. No exterior procura-se dificultar o consumo, por exemplo, em eventos a pessoa pode comprar apenas uma lata de cerveja por vez, tendo uma fila para comprar a ficha e outra para pegar a bebida. Desta forma a demora desestimula o consumo desenfreado”. Ele conclui “recomendo que o Partido Verde dê prioridade máxima a questão do álcool, como no exemplo da lei de Diadema, importante e eficaz. Não se deve proibir, mas sim regulamentar o consumo de álcool”.

O médico e liderança do PV de São José do Rio Preto, Dr. Kakau Lopes, abordou o tema “Saúde nas eleições municipais”. Ele destaca o Sistema Único de Saúde - SUS como importante conquista dos movimentos sociais na Constituição de 1988, mas os valores repassados ao SUS são insuficientes (R$ 270,00/hab./ano) e propõe: “O PV precisa defender o SUS, unindo-se aos movimentos sociais”. “O modelo atual da saúde tem o foco nas doenças, e não nas pessoas... com o crescimento urbano nossas doenças rurais viraram urbanas, fruto do subdesenvolvimento e da favelização: a volta da dengue é a conseqüência”. “A demanda atual do SUS é 60% fruto do sofrimento da alma, da falta de lazer, cultura, esporte e de problemas ambientais”. Para ele “saúde não é apenas equipamentos e infra-estrutura, mas relacionamento humano”. “Aos pacientes perguntou-se em pesquisa recente o que eles poderiam fazer para melhorar sua saúde: 70% responderam não sei”. “O Brasil é hoje o 8º maior consumidor de remédios do mundo, mas isso não é parâmetro de saúde”.

Já o arquiteto Edison Ivanov disse que apenas “a melhor qualidade na organização das cidades, no uso e na ocupação do solo”, poderá propiciar qualidade de vida e apresenta uma representação gráfica de um modelo ideal. O palestrante conclui dizendo que “a distribuição espacial deve buscar minimizar os deslocamentos na cidade, distribuir melhor a economia e os serviços que podem estar próximos aos locais de moradia”.
Por fim, são propostas as seguintes ações e políticas públicas:


Saúde e Lazer

* A prioridade máxima para as ações de saneamento ambiental, a melhor forma de prevenção e de se reduzir internações por doenças de veiculação hídrica;

* A interdisciplinaridade e a transversalidade como sendo “os diferenciais” das políticas públicas do PV na área da saúde, bem como prioridade máxima para as decisões colegiadas;

* A conscientização permanente dos cidadãos para se reverter a “cultura da medicalização” e o uso excessivo dos medicamentos;

* O incentivo permanente ao exercício físico para o combate ao sedentarismo;

* A ampliação de parques e áreas verdes;

* O apoio permanente às associações esportivas, recreativas e culturais;

* A ampliação dos PSFs – Programas de Saúde da Família;

* A ênfase nas ações preventivas, na educação para as mudanças de hábitos, combate ao sedentarismo, alimentação sadia, como formas de se evitar doenças;

* A reabilitação da medicina pública através da elevação do nível salarial dos profissionais da saúde (e da cobrança da qualidade dos serviços prestados), a implantação efetiva e o fortalecimento do SUS e o afastamento dos postos de decisão de médicos e gestores ligados aos interesses da medicina privada e dos seguros-saúde, que devem se moldar às condições de mercado sem favorecimento cartorial do Estado;

* A formação de agentes comunitários de saúde com ênfase na saúde preventiva, nas terapias alternativas e o uso de plantas medicinais;

* O reaparelhamento dos setores de emergência e programas médicos específicos para mulheres, idosos, crianças, adolescentes e trabalhadores;

* A realização de campanhas de educação e prevenção às doenças infecto-contagiosas, inclusive as DSTs;

* A realização de campanhas preventivas sobre álcool e drogas; sedentarismo, hipertensão, diabetes, entre outras;

* A ampla discussão na sociedade sobre os benefícios, inclusive ambientais, da redução do consumo de carne bovina;

* A implantação de Programa de Planejamento Familiar; com ênfase nos métodos anticoncepcionais e na prevenção da gravidez de adolescentes;

* A criação de serviço municipal específico para o atendimento integral aos usuários de álcool e drogas;

* A criação de serviço municipal específico para o atendimento integral às crianças e mulheres vítimas de maus tratos e violência doméstica;

* A criação, em conjunto com o órgão gestor de meio ambiente de programa municipal de controle da poluição sonora;

* A maior participação dos verdes nos Conselhos Municipais de Saúde e em outras instâncias colegiadas;

* A criação do “Projeto Amar”, sensibilização pública para a defesa dos ser humano, a importância de cada indivíduo, a defesa das minorias, das crianças, das grávidas, do nascituro;

* A organização por parte das Executivas Nacional, Estadual e Municipais do PV de agendas de discussão para a definição das estratégias de ação de nossos parlamentares (Deputados Federais e Estaduais e Vereadores) para o fortalecimento das políticas de saúde.

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