Fundação Verde Herbert Daniel

Adieu, professeur Claude
Por Gilberto Abreu, vereador pelo PV de Ribeirão Preto


Sempre imaginei o professor Claude Lévi-Strauss como uma referência parisiense, tal como a Torre Eiffel ou o Arco do Triunfo. Alto. Imponente. Soberbo. Ao saber de sua morte no último 30 de outubro, nos seus 100 anos de idade, não sei por qual motivo me veio à lembrança a capa do meu primeiro livro de francês. Trazia na primeira e na última capas as gravuras daqueles monumentos gauleses. Não sabia, naqueles distantes anos 60, que a professora Lael que nos ensinava cantando Frère Jacques, Alouete gentille Alouette, Alouette je te plumerai, Alouette gentille Alouette, Alouette je te plumerai, além da Marselhesa e outras canções populares, na verdade criava um laço afetivo que perdura até hoje, com a sonoridade da língua e a orgulhosa cultura francesa. Os seus ensaístas, filósofos, escritores, poetas, pintores e chanssoniers. Dentre tantos, professeur Claude. Por mais de uma razão.


A Luta contra o Racismo

As detestáveis obras racistas, do Conde de Gobineau a Hitler, sempre me produziram asco e repulsa. Suas idéias de superioridade de alguns grupos humanos sobre outros, de degenerescência por conta de miscigenações foram e são abomináveis. Ao contrário, sempre me atraíram as figuras agregadoras como Ghandi, Luther King Jr. e tantos outros. As lutas que empreenderam dignificam a condição humana. Porém, muito antes do Programa Genoma Humano ter desqualificado cientificamente o racismo, o antropólogo Claude Lévi-Strauss em seu admirável livro Raça e História, publicado em 1952, já o fizera ao rejeitar a dimensão biológica do conceito de raça, desqualificando qualquer correlação entre tipos humanos e suas possíveis diferenças intelectuais. “Não existem povos crianças, todos são adultos, mesmo aqueles que não tiveram diário de infância”, escrevia ele. A existência das diferenças jamais permite a sua hierarquia. O que também fica claro em O Pensamento Selvagem, onde, contrariando a grande maioria dos antropólogos que buscavam catalogar as diferenças culturais, o professeur Claude cuidou de descobrir estruturas universais, ou seja, os elementos comuns da mente humana. De qualquer homem. De qualquer cultura ou estágio civilizatório.

O Espetáculo do Mundo

O humanismo de Lévi-Strauss jamais foi o do exclusivamente humano. Ao dizer que “os direitos da humanidade cessam no momento em que seu exercício põe em risco a existência de outras espécies”, o mestre amplifica a visão costumeira e própria da Modernidade. O homem não é o centro das coisas. É parte. E como tal, deve agir de forma equilibrada com a Natureza e com toda a sua diversidade. Desde o tempo em que não era moda falar sobre isso, levantava questões e argumentações antecipadoras da problemática ambiental que estamos a enfrentar. Amante da diversidade, mais de uma vez chegou a lamentar, dentre outros desastres, o mal provocado pelo colonialismo que fez desaparecer diversas culturas. Um exemplo dramático: dos muitos milhares de línguas que eram faladas (maneiras diversas de ler o mundo) hoje restam apenas algumas poucas centenas. Uma perda irreparável.

O Brasil e o professeur

Poucos o sabem. Claude Lévi-Strauss participou da criação da primeira e principal Universidade brasileira, a USP – Universidade de São Paulo. Fez parte da brilhante missão francesa, ao lado de nomes de igual relevância, tais como: Fernand Braudel, Pierre Mombeig, Roger Bastide, Pierre George, dentre outros, que definiram o perfil da nossa mais importante Academia. As suas viagens pelo interior do país, convivendo com grupos indígenas, bororos, nhambiquaras, deram ao Mestre francês a oportunidade de desenvolver a sua vasta e marcante obra de etnologia, etnografia e antropologia. Tristes Trópicos, Mitológicas, Antropologia Estrutural são referências que alteraram o curso das ciências humanas. Caetano Veloso que o citou por quatro vezes em suas canções, assim se expressou em artigo publicado pela FSP, no dia 04 de Novembro: “Ele tinha uma cara muito bacana de judeu bondoso mas irônico, uma maravilhosa cara de quem tem vocação para a longevidade (coisas de que ele antes se queixava com modesta ironia, mas que a mim me parece uma virtude). Em suma, eu gostava dele. Gostava de pensar que ele, tão distante e tão próximo, estaria ainda sempre por aí, como minha mãe e Niemeyer, o que me dá uma espécie muito tranqüila de saudade.”

Saudade. Objeto de seus dois últimos trabalhos, Saudade do Brasil, Saudade de São Paulo, onde publicou centenas de suas fotografias, acompanhadas de textos precisos e poéticos. E por falar em Caetano Veloso, ninguém melhor que ele traduziu o pensamento de Lévi-Strauss, como na letra da música Um Índio:

Um índio descerá de uma estrela colorida e brilhante
De uma estrela que virá numa velocidade estonteante
E pousará no coração do hemisfério sul, na América, num claro instante

Depois de exterminada a última nação indígena
E o espírito dos pássaros das fontes de água límpida
Mais avançado que a mais avançada das mais avançadas das tecnologias

Virá, impávido que nem Muhammed Ali, virá que eu vi
Apaixonadamente como Peri, virá que eu vi
Tranqüilo e infalível como Bruce Lee, virá que eu vi
O axé do afoxé, filhos de Ghandi, virá

É bom perguntar-lhe. Professor, tu podes nos ouvir? Irás um dia voltar num claro instante? Apaixonadamente como Peri? Podes ouvir que tocam os sinos?
Frère Claude! Frère Claude!
Frère Claude, dormez- vous?

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