Fundação Verde Herbert Daniel

Nesta entrevista, José Galizia Tundisi – uma das maiores autoridades científicas internacionais – fala sobre os desafios da gestão integrada dos recursos hídricos na região metropolitana de São Paulo. Autor de livros que retratam os ecossistemas hídricos, esse ex-professor da USP e ex-presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), está à frente agora do Instituto Internacional de Ecologia (IIE), com sede em São Carlos.

Tundisi acompanhou o processo que culminou na implantação, pela Organização das Nações Unidas, da “Década Mundial da Água”, vigente desde 2005. Entre março e abril deste ano, no marco de um convênio com a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente do Município de São Paulo, ele expôs os resultados dos estudos da Guarapiranga e Billings em um curso com foco na Gestão de Bacias Hidrográficas e Serviços Ambientais. Durante o curso, ele concedeu esta breve entrevista a Walter Tesch – sociólogo e ex-subprefeito de Parelheiros, região dos Mananciais da cidade de São Paulo.

Site FVHD – Partimos da premissa de que a região Metropolitana de São Paulo tem aproximadamente 8 mil km² sob a autoridade de quase 40 municípios. Temos quase 20 milhões de pessoas e não temos autonomia no fornecimento de água. Nesse contexto, é possível abordar a gestão da água só na esfera municipal?
Tundisi – Não. As fontes são externas, com abastecimento procedente de várias bacias hidrográficas e sob órbita de várias autoridades municipais. Isso demanda uma concetração institucional com claras metas e um pacto metropolitano pela água para assegurar o abastecimento e simultaneamente uma política de redução da demanda.

Site FVHD – Neste quadro, como você avalia o sistema de gestão das águas na região?
Tundisi – Constato que, em São Paulo, houve alguns avanços na relação entre o Estado e o Município, como a Operação Defesa das Águas, com ações de fiscalização integrada do uso do solo, córrego limpo e outros programas. Desconheço o grau de integração sistêmica dessas iniciativas, mas já é positivo que o tema tenha ingressado com consistência na agenda política. Contudo, para chegar a uma gestão metropolitana, constatamos uma barreira institucional, cuja superação exigirá ousadia dos governantes. Por exemplo: as leis específicas demandam, com prazo determinado, um sistema integrado de gestão e um monitoramento constante que ainda não vislumbramos.

Site FVHD – Quais os parâmetros de uma gestão sistêmica das águas na região Metropolitana de São Paulo?
Tundisi – Primeiro, uma organização institucional consistente com clara responsabilidade na proteção e resgate de todo o sistema de mananciais da região. Em segundo lugar, uma campanha massiva de mobilização da opinião pública, visando reduzir a demanda e o desperdício da água tratada. Por último, um banco de dados integrados com informações consistentes e contínuas para avançar em um efetivo processo de manejo e administração dos reservatórios, sistema de distribuição e consumo da água na região.

Site FVHD – Que outros obstáculos temos que enfrentar para avançar para uma gestão sistêmica?
Tundisi – Não existem problemas técnicos, de conhecimento ou até de recursos caso haja uma coordenação institucional. O principal obstáculo e dificuldades estão no plano político. Veja o caso de Guarulhos. O município impetrou e conseguiu uma liminar de um juiz para não tratar o esgoto até 2030. Até lá, milhões de litros de esgoto são lançados diariamente in natura no Rio Tietê, em prejuízo de toda a sociedade. Se não houver urgente uma tomada de consciência por parte da sociedade como um todo, lideranças políticas e comunitárias, a sociedade certamente sofrerá as conseqüências.

Site FVHD – Neste sentido, existe um horizonte, um limite temporal de saturação. Qual a estimativa de um ponto crítico?
Tundisi – Sim! Temos a questão da disponibilidade da oferta, a solução do esgoto e do lixo que são fatores de solução integrada. Se continuar o atual ritmo, penso que em cinco anos, a quantidade e a qualidade da água na área metropolitana chegará a um ponto crítico. É possível perceber o agravamento em uma velocidade maior que a capacidade de resposta institucional organizada e coordenada do sistema político. Repito: o problema não esta no nível tecnológico nem na competência dos quadros técnicos. Corremos contra o tempo.

Site FVHD – Se não construirmos uma política que leve a uma gestão integrada, quais as conseqüências para a cidade e a metrópole?
Tundisi – Ultimamente, com as mudanças climáticas e outros fenômenos naturais, temos visto no mundo e aqui mesmo no Brasil, recorde-se Santa Catarina, vários cenários de grandes desastres com efeitos catastróficos, ameaçando a própria estrutura social. No caso específico, desde o ponto de vista da quantidade e qualidade da água, podemos assistir a um caos com efeitos sanitários de vários níveis. Não temos estudos e informações epidemiológicas que relacionem qualidade da água a um conjunto de doenças na RMSP.

Site FVHD – Qual a sua opinião sobre o atendimento da demanda, trazendo água cada vez mais distante do estilo dos aquedutos romanos?
Tundisi – Além do elevado custo, não resolve o problema. É possível que seja uma solução mais permanente e de menor custo instalar uma planta de dessalinização na Baixada Santista e bombear com a energia da Henry Bordem. Com uma população estabilizada, solução estratégica é reduzir a demanda e potencializar os reservatórios Billings e Guarapiranga.

Exibições: 1

Responder esta

© 2012   Criado por Administrador FVHD.

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço