Fundação Verde Herbert Daniel

Marcelo de Moraes

Ateus também são cidadãos, têm direitos e merecem respeito

Quando se discute a intolerância religiosa, representantes de todas as religiões se pronunciam, pessoas se pronunciam defendendo suas crenças, porém, sempre se esquecem daqueles que não possuem crença alguma, os ateus e agnósticos.
De acordo com o site da ATEA, Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos (www.atea.org.br), fundada em agosto de 2008 por Daniel Sottomaior, Alfredo Spínola e Mauricio Palazzuoli diz:

"Apesar de o IBGE se recusar a divulgar a quantidade de ateus e agnósticos apurada pelos censos, sabe-se por pesquisas particulares que eles compõem cerca de 1 a 2% da população brasileira. Uma pesquisa Brasmarket, que ouviu 200 mil eleitores em 449 cidades do País, por exemplo, apontou 1,4% de ateus. Com uma população de 190 milhões de pessoas, são cerca de 2,7 milhões de descrentes. Isso é cerca de quatro vezes mais do que o número de adeptos do judaísmo, umbanda e candomblé, juntos. No entanto, o ateísmo é praticamente invisível no Brasil. Muita gente tem ao menos noções rudimentares sobre os cultos afro-brasileiros e o judaísmo, mas sabe pouco ou nada sobre a descrença, que é uma posição bem mais antiga e popular." fonte: www.atea.org.br - Pergunte ao Ateu

Basta procurar no orkut ou youtube para ver o poder da intolerância religiosa com relação aos ateus, comunidades do tipo "Mate um ateu e seja feliz" entre outras. Pregam que ateus não possuem princípios morais, nem éticos, que não possuem caráter e não são confiáveis, apenas porque "não tem deus no coração." Agora eu pergunto, qual deus estão mencionando? de qual religião estão falando? fazem questão de impor que a moralidade só é possível através da religião, o que nós ateus discordamos totalmente. Apenas por termos pontos de vista diferentes não implica que somos menos morais ou éticos apenas por não pensarmos como os religiosos.

Irei reproduzir mais um texto extraído do site da ATEA:

..."para medir índices de rejeição, há décadas o instituto Gallup vem perguntando aos norte-americanos se eles votariam para presidente em um indivíduo no geral bem qualificado e indicado pelo partido de sua preferência, caso ele fosse judeu, negro, mulher, etc. Os ateus têm hoje o maior índice de de rejeição (53% não votariam em um ateu), bem à frente do segundo colocado (43% não votariam em um homossexual). A revista Veja encomendou uma pesquisa ao CNT/Sensus e descobriu que 84% dos brasileiros votariam em um negro para presidente da República, 57% dariam o voto a uma mulher, 32% aceitariam votar em um homossexual, mas apenas 13% votariam em um candidato ateu.

Mas será que essa rejeição não se limita a pruridos políticos? Em 2008, a Fundação Perseu Abramo perguntou a 2014 pessoas acima de 15 anos, em todas as classes sociais, o que elas sentiam normalmente ao ver ou encontrar desconhecidos de diferentes “grupos de pessoas”. O resultado foi o seguinte: empatados com usuários de drogas, os ateus estão em primeiro lugar no quesito "repulsa/ódio", sentimento despertado em 17% dos entrevistados. O segundo lugar é o de garotos de programa, com apenas 10%. Os ateus também estão em primeiro lugar na categoria "antipatia", sentimento despertado em 25% dos entrevistados. Novamente, um empate técnico com usuários de drogas (24%). Portanto, 42% das pessoas sentem antipatia ou coisa pior pelos ateus. Definitivamente, este não é um problema de mero conservadorismo eleitoral.

Apreciemos dois exemplos recentes. Veja-se inicialmente a declaração do cônego José Luiz Villac:

"alguém que rompeu com Deus no fundo do seu coração é um indivíduo visceralmente ruim. Os aspectos aparentemente bons de sua personalidade apenas encobrem essa malícia de fundo, que contamina todos os seus atos internos e externos."

"Ah, mas esse é só um religioso destilando preconceito para poucas centenas de fiéis na missa de todos os dias", dirá você... Tudo bem, então vejamos o que tem a dizer um dos maiores jornais do país sobre ateísmo, usando evidentemente de toda a imparcialidade disponível a um veículo midiático de peso e importância no país. O Especial de religiões de 2001 da Folha de S. Paulo descreve nove religiões nos termos mais elogiosos possíveis, chegando a defender o machismo exacerbado das crenças toltecas; omitindo-se sobre o fato de que cientologistas achacam judicialmente todos os seus críticos, gastam fortunas para ascender hierarquicamente no grupo e vez por outra deixam de receber cuidados médicos em função de suas crenças; esquecendo de citar que o espiritismo ensina seus seguidores a culparem a si próprios por absolutamente todo mal que lhes sucede; e sendo perfeitamente condescendentes com os indivíduos que entendem que uma bebida psicotrópica é "santa".

E como o especial descreve o ateísmo? Não com um texto jornalístico igualmente ufanista, mas com a crítica de um filósofo do século dezenove, que afirma

"O ateísmo, teórico e prático, é um vício profundo, ou, em termos mais claros, o vício radical do coração e do espírito humano. Século algum se viu livre dele, e o nosso está mais contagiado do que se imagina."

Esse é o estado atual do ateísmo em nossa sociedade: vilipendiado abertamente até pelos supostamente mais sérios veículos de comunicação. Imagine-se o que aconteceria se o mesmo fosse dito do judaísmo, das religiões afro-brasileiras ou qualquer outro grupo religioso! Mas no caso do ateísmo, o resultado é só silêncio. Diversos pedidos para retirar esse texto foram simples e facilmente rejeitados nos últimos anos." fonte: www.atea.org.br

Nós ateus estamos enfrentando o mesmo preconceito e discriminação que os gays, mulheres e negros, cada qual em seu tempo, somos a mais nova minoria oprimida que luta por seus direitos.
A luta pelo laicismo no governo não é uma luta somente de ateus e agnósticos, mas também de todas as religiões que são discriminadas.
Marcelo de Moraes é estudante de Geografia da UNESP, Universidade Estadual Paulista de Rio Claro/SP

Exibições: 6

Responder esta

© 2012   Criado por Administrador FVHD.

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço