Fundação Verde Herbert Daniel

Sérgio Dialetachi

Debate na Alemanha relembra o acidente com usina nuclear ucraniana e fortalece o movimento contra a construção de novos reatores no mundo.

Berlim, 27 de Abril de 2009

Terminou ontem na capital alemã, o McPlanet.com, evento bienal que reúne centenas de especialistas e ativistas de várias partes mundo para discutir questões sociais e ambientais. Desta vez sob o slogan “Fim de Jogo. Reinicie!” (em inglês “Game Over. Restart!”), o encontro procurou avaliar, em 3 dias e mais de uma centena de painéis, fóruns, oficinas, atividades artísticas e culturais e até de uma feira de possibilidades, como é possível o mundo avançar na proteção ao meio ambiente e na promoção da justiça social em uma era de globalização econômica.

Como destaque do último dia de discussões na Universidade Técnica de Berlim, a Fundação Heinrich Boell realizou um debate em memória do acidente de Chernobyl, ocorrido há 23 anos.

Foram convidados para fazerem as apresentações, Heinz Smital (coordenador da campanha antinuclear do Greenpeace alemão), Nikolaus Supersberger (especialista em energias renováveis do Wuppertal Institute for Climate, Environment and Energy), Sérgio Dialetachi (consultor da Fundação Boell no Brasil), além de um representante das indústrias alemãs. Teve como moderador o jornalista Nick Reimer (da entidade Wir-Klimaretter).

Durante a argumentação, foram explorados aspectos como a inviabilidade econômica da energia nuclear (que no mundo todo precisa de subsídios para poder competir com as fontes energéticas limpas), a questão de segurança (indo dos riscos inerentes à operação de reatores aos perigos de atentados terroristas contra essas usinas ou de roubo do material radioativo que produzem), a defasagem tecnológica que torna usinas como Angra 3 ultrapassadas (enquanto que as energias eólica e solar estão alcançando seu pico de atualização) e a falta de uma solução adequada (no mundo inteiro) para o lixo atômico.

O representante do Brasil salientou outro aspecto preocupante: a estreita ligação entre a indústria nuclear, desde o seu início nos anos 30/40, e a produção de bombas atômicas. “Foi no 1º reator nuclear construído para a geração de eletricidade, o da Universidade de Chicago (de 1942), que foram feitos importantes ensaios para a bomba de Hiroshima”, disse Dialetachi.

Em sua manifestação, o brasileiro relembrou também a tragédia com o Césio-137 em Goiânia, o comprometimento do meio ambiente pela mineração de Urânio em Caetité-BA, as denúncias de contaminação (acidental ou auto-produzida) de trabalhadores das Indústrias Nucleares Brasileiras (INB) e a recente admissão pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) de que metade das fontes radiológicas do país (como a que provocou o acidente na capital goiana em 1987) estão completamente fora do seu controle e fiscalização. “É como se vivêssemos uma micro-Chernobyl todos os dias”, comparou o consultor da Fundação Boell.

Por último, Dialetachi alertou para o risco de nuclearização da América do Sul. Em sua opinião, por trás dos planos de construção de reatores nucleares no Uruguai, Chile, Bolívia, Peru, Equador e Venezuela (além do Brasil e Argentina, que já possuem indústrias nucleares) estão antiquados sonhos de hegemonia nacional ou regional. “Infelizmente, alguns governantes sulamericanos ainda acreditam que a aquisição por seus países de tecnologia sensível (provavelmente para a fabricação de artefatos militares) é o único caminho para a sua projeção no concerto das nações. Esses governantes não percebem o momento de transformações que a Humanidade está atravessando e a oportunidade que a América do Sul tem de liderar parte dessas transformações, desenvolvendo suas economias e satisfazendo as necessidades de suas populações de maneira muito mais limpa que a Europa, China, Índia, Japão ou EUA. Não devemos, não podemos e nem prec isamos seguir os mesmos caminhos encardidos que outros países já trilharam e que nos levaram à atual crise ambiental, social e econômica mundial. Nossa liderança se exerce exatamente pela capacidade de dialogar e conviver em paz”, completou o ambientalista brasileiro.

Como lição dos debates em Berlim, pode-se dizer que Hiroshima, Goiânia, Caetité ou Chernobyl são apenas diferentes faces de uma mesma indústria nuclear suja, ultrapassada, insegura e cara.

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