Fundação Verde Herbert Daniel

Dr. Dias – Amigo dos Animais.

CRIAÇÃO DO CENTRO NACIONAL PARA A CONSERVAÇÃO DA FAUNA – CENCOF

O Brasil possui 14% da biodiversidade mundial, ou seja, em torno de 196 mil de todas as espécies de animais e plantas estudadas e catalogadas no mundo todo. Entre os 17 países que concentram a maior parte de biodiversidade do planeta Terra, nosso país é o líder, quase um campeão mundial no quesito natureza. Entretanto, os brasileiros estão também entre os quatro povos que mais ameaçam mamíferos, atrás somente de indonésios, chineses e indianos.
O tráfico de animais selvagens é o terceiro maior comércio ilegal do mundo, perdendo apenas para o tráfico de drogas e de armas, que, segundo os especialistas, hoje se misturam tanto que são encarados como único. Movimenta aproximadamente US$ 10 bilhões por ano e o Brasil participa desse mercado com cerca de US$ 1 bilhão ao ano. Segundo estimativas da RENCTAS (Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres), de cada 10 animais traficados, apenas um sobrevive. No planeta, uma espécie animal desaparece a cada vinte minutos. Com essa taxa de mortalidade, até o final do século perderemos a metade das espécies animais do mundo. Será a sexta grande extinção mundial. A quinta grande extinção ocorreu há 65 milhões de anos, com o desaparecimento dos dinossauros, possivelmente causado pelo impacto de um meteoro.
A exploração desordenada dos recursos naturais está diretamente ligada ao crescimento populacional e aos índices de pobreza. Como conseqüência, a fauna brasileira vem passando, nas últimas duas décadas, por um processo intenso de extinção de espécies. As causas vão do avanço da fronteira agrícola ao tráfico de animais selvagens, passando pela caça esportiva, de subsistência ou com fins econômicos, como a venda de peles, e pela introdução de espécies exóticas ou pela competição com as espécies domésticas. Ultimamente, a comunidade científica acredita que os dois últimos fatores são os grandes responsáveis pela extinção das espécies. No RS, a Mata Atlântica ocupava 39,7% do território, estando hoje reduzida a 2,69%, correspondendo a 7.496 km2. O RS constitui em seu território o limite meridional da Mata Atlântica brasileira, um bioma que abriga inúmeras espécies da fauna e da flora, raras ou ameaçadas de extinção, além de garantir a regularidade dos mananciais de água que abastecem as cidades. O bioma Pampa, único no Brasil, também sofre com a degradação causada pela a ação do pisoteio do gado da atividade pecuarista.
A lista oficial dos animais ameaçados de extinção, de responsabilidade do IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis), hoje é composta por 218 espécies. Destas, sete já são consideradas extintas: a arara-azul-pequena (Anodorthynchus glaucus), o tietê-de-coroa (Caliptura cristata), a libélula (Mecistogaster pronoti) e quatro tipos de borboletas. Segundo o SEMA (Secretaria do Meio Ambiente do Estado do Rio Grande do Sul), a Lista Vermelha da Fauna Ameaçada de Extinção – RS apresenta 261 espécies, em diferentes graus de ameaça. As aves constituem o grupo mais prejudicado, com 128 espécies na lista do total de 624 espécies registradas no Estado. Também estão na Lista 33 espécies de mamíferos, 17 de répteis, 28 de peixes, 10 de anfíbios, 7 de crustáceos, 17 de moluscos, 3 de esponjas, 7 de insetos coleópteros e 10 de insetos himenópteros. Entre os mamíferos, aparecem na categoria "criticamente em perigo" animais que são encontrados somente em unidades de conservação do Estado, como a onça-pintada e a anta que têm ocorrência no Parque Estadual do Turvo (município de Derrubadas) e o veado-bororó-do-sul que também é visto nesta área e no Parque Estadual do Espigão Alto (município de Barracão). O bugio-ruivo, espécie vulnerável, é encontrado no Parque Estadual de Itapuã, reaberto no dia 22 de abril, e nos parques Estaduais do Turvo e do Espigão Alto e é considerada uma importantíssima espécie indicadora da saúde ambiental, como por exemplo, no caso da febre amarela. A lontra, também considerada vulnerável, ainda pode ser vista nos Parques Estaduais Delta do Jacuí, Itapuã e Turvo. A ariranha é um mamífero classificado como "provavelmente extinto", pois não há registros recentes de sua aparição. Entre as aves, a maracanã e a arara-azul-pequena estão com extinção confirmada no Rio Grande do Sul. Em perigo aparece o carretão, cujo único lugar de ocorrência no Estado é a Reserva Biológica do São Donato (municípios de Itaqui e Maçambará). Entre outras aves da Lista estão o urubu-rei, o gavião-cinza, o pato-do-mato, maçarico-acanelado, a rola-azul e o pica-pau-rei. O dourado é um dos peixes que figura na Lista e entre os crustáceos merece destaque o caranguejo (também conhecido como catanhão, gatanhão) e o caranguejo-violinista.
É comum haver confusão entre os termos conservação e preservação. Muitas vezes usados para significar a mesma coisa, na verdade expressam idéias que se originaram de raízes e posturas distintas. Com o correr do tempo, o preservacionismo tornou-se sinônimo de salvar espécies, áreas naturais, ecossistemas e biomas, mantendo a sua integridade. A preservação se faz necessária quando há risco de perda de biodiversidade, seja de uma espécie, um ecossistema ou de um bioma como um todo. Tende a compreender a proteção da natureza, independentemente do interesse utilitário e do valor econômico que possa conter, sem a participação humana. Já a visão conservacionista permite o uso sustentável e assume um significado de salvar a natureza para algum fim. A conservação admite a participação humana, em harmonia e com intuito de proteção.
Assim sendo, com extrema facilidade é possível citar cinco boas razões para conservarmos a nossa fauna selvagem:
 Ecológica – os animais estão inseridos em uma rede de interações interdependentes, como no controle de animais herbívoros realizado pelos predadores carnívoros ou como na dispersão de sementes realizada por roedores e aves. O desaparecimento de uma espécie certamente influenciará a dinâmica populacional de outra. Ao conservarmos uma determinada espécie, indiretamente estaremos protegendo o bioma onde ela está inserida;
 Econômica – cada vez mais a propaganda turística brasileira explora a nossa fauna quando divulga o nosso país no exterior. Em muitos estados brasileiros o ecoturismo é uma grande fonte de renda, onde turistas de dentro e de fora do país pagam um bom valor em dinheiro para observar e fotografar os animais no meio natural;
 Éticas e legais – matar animais é errado e levar uma espécie à extinção é imoral. Mais do que isso, matar é ilegal. Cada vez mais as pessoas não aceitam a matança indiscriminada e acreditam que outras espécies também possuem o direito de viver. Matar animais selvagens é crime segundo a Lei de Crimes Ambientais, explicitado em seu Artigo 29. A compreensão de que são as pessoas as invasoras do espaço dos animais e de que estes não causam prejuízos propositalmente ou por maldade, mas sim por seguirem seus instintos de sobrevivência, contribuem para a percepção de que matar animais selvagens é errado;
 Emocionais – os animais sempre exerceram um grande fascínio sobre as pessoas, despertando emoções que vão da admiração ao medo, do fascínio à raiva. É parte da natureza humana valorizar a diversidade em todas as sua dimensões, seja ela material, cultural ou natural. Pela mesma razão que tombamos edifícios históricos e abrigamos obras de arte em museus, nos sentimos apegados aos animais o suficiente para preferir que eles continuem existindo. Além disso, ao contemplar uma espécie na natureza, muitos pais querem que os seus filhos, netos e bisnetos também tenham o mesmo privilégio;
 Culturais – a grande maioria das espécies da nossa fauna está inserida na cultura dos povos indígenas. Já para os brasileiros modernos, a fauna contribui para a manifestação das mais variadas formas de expressão cultural, do artesanato local aos clássicos de literatura infantil, de pinturas que retratam a história do país a cédulas de cinqüenta reais.
Com o crescimento populacional e com o aumento da exploração dos recursos naturais, cada vez mais o ser humano estreita o seu contato com diferentes biomas e com as espécies selvagens. Uma das conseqüências deste contato é o surgimento de doenças emergentes. Cerca de 75% das doenças emergentes são zoonóticas, ou seja, são transmitidas dos animais para as pessoas, além de terem altas taxas de mortalidade. Nestes casos, os agentes mais comuns são os vírus. Estas doenças aparecem devido a causas ecológicas e normalmente não são novas, mas surgem devido a mudanças nas interações entre os hospedeiros e os vetores. Os exemplos mais famosos são os da AIDS, da febre aviária e suína, do ebola e do hantavírus. A Medicina da Conservação é uma nova ciência para a crise da saúde ambiental e a conseqüente perda da diversidade biológica, desenvolvida por meio de transdisciplinaridade na execução de pesquisas, ações de manejo e políticas públicas ambientais voltadas à manutenção da saúde de todas as comunidades biológicas e seus ecossistemas. A principal fonte de contágio de seres humanos por alguns vírus causadores de doenças que podem levar à morte se dá por meio do contato com animais selvagens, que os transmitem através das suas fezes e urina. Alguns desses animais podem tornar-se agressivos e, por meio de mordedura, transmitir também doenças conhecidas, porém não menos letais ou perigosas, como a raiva, a leptospirose, a toxoplasmose, a psitacose, a hanseníase, a leschimaniose, entre outras. Assim sendo, medicina da conservação tem como objetivo investigar:
 A epidemiologia das doenças em espécies selvagens, estudos em cativeiro e natureza;
 Os impactos de agentes etiológicos nas populações de animais selvagens;
 A importância do trânsito de doenças entre fauna doméstica e selvagem;
 O impacto de zoonoses nas populações de animais;
 O impacto de agentes estressantes sobre populações selvagens;
 As doenças prevalentes que afetam as populações animais;
 A saúde pública veterinária;
 A vigilância epidemiológica;
 A saúde pública humana.
No Brasil, a EMBRPAPA - CENARGEN (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Centro Nacional de Pesquisa de Recursos Genéticos e Biotecnologia) já realiza um trabalho de conservação de espécies vegetais e animais de interesse econômico. Neste local existe um Banco de Germoplasma de plantas e animais que é um repositório onde se armazena a variabilidade genética de uma ou de varias espécies e têm como objetivo conservar com a manutenção do máximo possível de variabilidade genética, mantida com o mínimo possível de erosão genética. O germoplasma vegetal é mantido conservado ex situ, na forma de sementes, em câmaras com temperatura de - 20º C, ou in vitro, em condições variadas exigidas por espécies de clima tropical e temperado. Espécies de plantas de difícil conservação ex situ são mantidas em conservação in situ, em cinco reservas de recursos genéticos nas quais parâmetros genéticos e populacionais são investigados, para garantir uma apropriada consevação de sua variabilidade. O Centro também desenvolve trabalhos de conservação e caracterização dos recursos genéticos de animais. Prioridade tem sido dada às raças domésticos em perigo de extinção, incluindo bovino, eqüinos, suínos, ovinos e caprinos. A maioria dessas raças, chamadas de "raças locais", estão no Brasil desde o período colonial e através do tempo adquiriram características de rusticidade e adaptabilidade, as quais são importantes no desenvolvimento dos programas de melhoramento. Células somáticas (sangue, cartilagem), germinativas (espermatozóides, oócitos) e embriões destas espécies estão armazenados em tanques com nitrogênio líquido à -196ºC. Os laboratórios de reprodução animal realizam Fecundação in vitro (FIV); Transferência de embriões (TE); Bipartição de embriões; cultivo in vitro de embriões; criopreservação de sêmen, embriões e óvulos; identificação de sexo de embriões por PCR; transferência nuclear para produção de embriões; citogenética de reprodutores; ICSI - Injeção Intra-Citoplasmática de Espermatozóides; cultivos de células para co-cultivo, colheita de processamento de sêmen; avaliação andrológica; colheita, avaliação e transferência de embriões; congelamento de embriões; punção folicular por ultra-sonografia; exames ginecológicos por ultra-sonografia; cultivo in vitro de embriões; co-cultivo de células; congelamento de células para co-cultivo de embriões; criopreservação de ovócitos; auxílio aos trabalhos de clonagem, citogenética e identificação do sexo de embriões; diagnóstico clínico e tratamento, além de criopreservar células germinativas e condroblastos (tecido cartilaginoso). O laboratório de genética animal tem como objetivos principais desenvolver e utilizar técnicas de biologia molecular para a caracterização e avaliação genética de espécies e/ou raças naturalizadas e comerciais de animais domésticos, visando à manutenção e conservação da variabilidade genética existente. Os projetos em andamento buscam estimar a diversidade e a estrutura genética, entre e dentre raças que fazem parte da programação de conservação de recursos genéticos animais da Embrapa. O LGA conta com um Banco de DNA e tecidos onde estão armazenadas, atualmente, mais de 8.200 amostras das diferentes espécies em estudo. Para as análises realizadas no LGA são utilizadas as seguintes técnicas: marcadores moleculares microssatélites, seqüenciamento de DNA mitocondrial e cromossomo Y bem como, polimorfismos de base individual (SNPs) identificados em genes relacionados a características de importância econômica para a pecuária brasileira. Com isso, pretende-se: 1) Identificar as principais origens filogenéticas das raças naturalizadas brasileiras; 2) Auxiliar o manejo genético dos núcleos de conservação existentes; 3) Identificar alelos/características específicas nas raças naturalizadas que podem vir a ser úteis nos rebanhos comerciais.
Com o cenário desfavorável para a nossa fauna, é prioritária e estratégica a criação de um Centro Nacional para a Conservação da Fauna (CENCOF) semelhante à estrutura da CENARGEN, onde técnicas de reprodução assistida (congelamento de gametas, inseminação artificial, produção in vitro de embriões, transferência de embriões, clonagem, monitoramento endócrino não invasivo), de biologia molecular (estudos filogenéticos, estudos populacionais) e bioecologia serão aplicadas para a conservação das espécies de animais selvagens ameaçados de extinção. A criação de um banco de germoplasma com sêmen, oócitos, embriões, sangue e condroblastos garantirá a manutenção das metapopulações para as próximas gerações. Um plano nacional promoverá a saúde populacional da fauna selvagem por meio do envio de material congelado em nitrogênio líquido para instituições cadastradas e a conseqüente introdução de novos genes nas metapopulações, colaborando assim para a manutenção da diversidade genética das populações em cativeiro e de vida livre. Laboratórios de microbiologia e virologia estudarão os ciclos epidemiológicos que levam ao surgimento de doenças, as chamadas doenças emergentes, a maneira que estas doenças afetam o ser humano e os animais domésticos, bem como os mecanismos para o seu controle. Com o auxílio da telemetria, serão realizados estudos in situ sobre a biologia e a ecologia das populações com intuito de identificar novas áreas de proteção ambiental e de promover translocações e reintroduções de animais, dentre outros. Como o ambiente encontra-se cada vez mais fracionado, com a formação de ilhas, é pertinente que sejam desenvolvidos planos de manejo que facilitem a troca genética entre as metapopulações que habitam estas ilhas.
O CENCOF será composto pelos seguintes laboratórios:
 Laboratório de Reprodução Animal (espermatologia, embriologia e endocrinologia);
 Laboratório de Genética Molecular;
 Laboratório de Bioecologia;
 Laboratório de Virologia;
 Laboratório de Microbiologia;
 Banco de Germoplasma;
 Clínica veterinária;
 Recintos para receber animais.
Os objetivos do CENCOF serão:
 Conservar espécies da fauna brasileira ameaçadas de extinção;
 Manter um banco de germoplasma das espécies em questão;
 Conservar e preservar o ambiente natural destas espécies;
 Desenvolver técnicas de reprodução assistida adaptadas às particularidades de cada espécie, visando à manutenção das populações em cativeiro e em vida livre;
 Realizar estudos genéticos para evitar retrocruzamentos e conseqüentemente evitar o gargalo genético nestas espécies (endogamia);
 Estudar os ciclos epidemiológicos das doenças emergentes e identificar novos agentes, hospedeiros e vetores;
 Identificar novas áreas de conservação e preservação;
 Promover programas para a manutenção das populações de vida livre;
 Realizar reintroduções, revigoramentos populacionais, introduções, reabilitações e translocações de animais de maneira técnica e segura;
 Sugerir e apoiar políticas ambientais deste setor.

DR. EDUARDO ANTUNES DIAS
MÉDICO VETERINÁRIO
MESTRE E DOUTOR EM REPRODUÇÃO ANIMAL

OBS: parte destas informações foram retiradas do texto escrito por Jaqueline B. Ramos em www.institutoaqualung.com.br/info_fauna52.html

Tags: Conservação, fauna, reprodução

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