Fundação Verde Herbert Daniel

Desertificação e convivência com o semi-árido brasileiro.

Marcelino Lima e Yazna Bustamante
 
A Desertificação no Mundo e no Brasil

Os primeiros registros sobre desertificação datam de 2000 a.C., na Mesopotâmia, uma região que é considerada o berço de várias civilizações, onde se desenvolveram cidades e uma agricultura com base na irrigação em locais onde existiam florestas. O problema da Desertificação veio ganhar visibilidade com a ocorrência da grande seca do Sahel, entre os anos de 1968 e 1964, quando morreram mais de 200.000 pessoas e rebanhos inteiros de fome e desnutrição. Esta catástrofe desencadeou uma série de ações da ONU para combater a desertificação na região. Em 1977 a ONU realizou a primeira conferência sobre Desertificação em Nairobi (Quênia) que resultou num Plano de Ação para Combate à Desertificação.

Segundo o artigo 1o. da Convenção de Combate à Desertificação (CCD), entende-se por Desertificação “a degradação das terras nas zonas áridas, semi-áridas e sub-úmidas secas, resultante de vários fatores, incluindo as variações do clima e as atividades humanas”. E por combate à Desertificação entende-se “as atividades que fazem parte do aproveitamento integrado das terras nas zonas sujeitas à desertificação com vistas ao seu desenvolvimento sustentável”.  No Brasil as áreas em processo de desertificação somam 181 mil km2 e se encontram na região semi-árida do Nordeste do Brasil. Áreas em situação severa de desertificação somam 15 mil km2 e são chamados de núcleos de desertificação, nos Estados do Piauí (Gilbués), Ceará (Irauçuba), Pernambuco (Cabrobó) e Rio Grande do Norte e Paraíba (Seridó).

As causas e conseqüências da desertificação no Brasil.

No Nordeste do Brasil as queimadas e a forma de trabalhar a terra têm sido os principais fatores que contribuem para a desertificação. A diminuição da cobertura vegetal acelera o processo de erosão do solo, as fontes de água secam mais facilmente, a evapotranspiração potencial aumenta e o balanço entre a captação e a perda de água fica cada vez mais negativa. Ou seja, se gasta mais água do que se consegue captar na natureza.

O semi-árido brasileiro é sujeito a secas periódicas e esse fenômeno das secas afeta a economia da região em seus mais variados setores, mas é importante destacar que quem mais sofre com os efeitos da seca são as populações mais pobres da zona rural, e que esse quadro precisa ser revertido de forma que essas famílias passem a ter uma nova forma de relacionamento com a natureza que passa, necessariamente, por um novo enfoque: utilizar bem os recursos naturais e assegurar as produções indispensáveis à segurança alimentar e ao desenvolvimento sócio-econômico da região.

O trabalho da Diaconia no semi-árido

A Diaconia, como organização cristã, tem desenvolvido um trabalho de respeito aos valores individuais e coletivos e, sob essa orientação, articulado ações de estruturação das unidades produtivas preparando-as para a estocagem efetiva de água, e a produção de alimentos e forragem, enquanto requisitos básicos para o estabelecimento de um padrão de sustentabilidade e estabilidade dos sistemas de produção. Podemos, então, definir minimamente algumas orientações para a produção familiar desenvolvidas e implementadas pela Diaconia:

· participação em  redes e articulações;
· valorização dos conhecimentos locais como ponto de partida para o estabelecimento de ações sustentáveis de produção;
· conjugação do conhecimento local com o conhecimento técnico-científico;
· diversificação das culturas e criações;
· otimização dos meios de produção sempre com respeito ao meio ambiente;
· descentralização do uso da terra, crédito e renda;
· fixação das famílias no campo vivendo em condições dignas;
· otimização do uso da água para uso doméstico e irrigação;
· estocagem de água, alimentos e forragem.

Algumas das propostas de convivência com o semi-árido e de enfrentamento à degradação das terras estão listadas a seguir: cisternas de placas; barragens subterrâneas e sucessivas; cultivos de produtos agroecológicos; criação de pequenos animais; utilização de energia solar; plantio de algodão orgânico. Esse conjunto de propostas tecnológicas, aplicadas dentro de uma metodologia de construção de conhecimento, tem mudado a vida de várias famílias nas regiões que trabalhamos.

Como as igrejas podem contribuir

Algumas experiências vêm sendo desenvolvidas e implementadas por centenas de Organizações Não Governamentais que trabalham com desenvolvimento rural no semi-árido brasileiro. Cerca de 700 dessas organizações são afiliadas à ASA (Articulação no Semi-Árido Brasileiro) e têm na ASA a força política de que necessitam para atuar com o objetivo principal de melhorar os meios de vida de milhares de famílias agricultoras. Guardando suas especificidades essas organizações se desdobram no esforço de captar e colocar em operação recursos humanos e financeiros a serviço do aumento da segurança hídrica e alimentar para as famílias.

As igrejas podem se acercar à Diaconia que é uma das entidades que fazem parte da ASA, ou entrar diretamente em contato com a ASA. Visite: www.asabrasil.org.br.

Marcelino Lima é Coordenador do Programa de Apoio à Agricultura Familiar (PAAF), da Diaconia; Yazna Bustamante é agrônoma e trabalha como técnica do PAAF.

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