Fundação Verde Herbert Daniel

É bem comum que canais de televisão, programas de rádio, jornalistas de revistas e jornais variados nos procurem para que prestemos depoimentos sobre nossa vida homossexual.

Querem saber como vivemos, namoramos, como foi nossa primeira vez. Querem tirar fotos da gente, mostrar-nos em programas de alcance nacional, levar nossos pais ou parceiros conosco.

A reação de homens e mulheres homossexuais a esse apelo é bastante dividida. Por um lado, nós sabemos que é necessário nos mostrarmos para que a maioria de heterossexuais deste país saiba que não somos bichos papões, nem criminosos, nem tarados, nem mesmo iguais uns aos outros. É útil também para que homossexuais enrustidos, ou isolados em pequenas cidades, ou adolescentes que estão descobrindo sua sexualidade tenham acesso a informações e imagens de gays e lésbicas que vivem de maneira assumida e feliz.

Devemos, portanto, participar sempre que a nossa exposição possa beneficiar alguém.
Por outro lado, é comum que a mídia nos use para fazer carnaval, levantar o que há de mais exótico na gente, nos agredir colocando seres idióticos e homofóbicos para gritarem na nossa cara.

É simplesmente horrível ser humilhado em público, devemos evitar a todo custo que nos usem dessa forma.

Como então equilibrar a necessidade de informar com o medo de sermos mal utilizados?
A mídia é guiada por duas necessidades: ter público e atrair anunciantes. Isso vale para a mídia dita “séria” tanto quanto para a mais popular. Se eles não tiverem anunciantes, não terão como pagar seus funcionários e jornalistas. Se não tiverem público, os anúncios não serão vistos ou lidos por ninguém.

Há coisas que a mídia não faz de jeito nenhum porque acha que vão espantar seus anunciantes ou ter menos público.

A Veja, por exemplo, só vai dar uma matéria realmente útil sobre homossexualidade quando esse assunto for absolutamente carne de vaca para a grande maioria dos brasileiros. Ela tem um arsenal de anunciantes tradicionais que a impedem de qualquer ousadia jornalística.

Programas que vivem de sensacionalismos jamais irão nos tratar com seriedade porque isso causa tédio no grande público. Para atender a necessidade de entreter as massas, essa mídia vai sempre realçar os aspectos esquisitos (para seu público sem cérebro) da homossexualidade.

Saber que alguns veículos têm uma forte tendência a nos desprezar ou não abrir espaço a sério para nós já ajuda a evitar desapontamentos.

Recomendações

Fernando Estima, jornalista responsável pela assessoria de imprensa das Edições GLS, da Parada do Orgulho Gay de São Paulo, da AEG do Brasil e de variados emprendimentos gays, dá recomendações interessantes para lidarmos com a mídia.
Ele diz que, dentro da faixa de atuação definida pelas necessidades de público e anunciantes, os jornalistas podem fazer algumas escolhas. Cabe a nós, quando abordados por eles para prestar algum depoimento, impor condições para a nossa participação.

Devemos:

• Perguntar qual é a pauta em detalhes. Eles vão abordar exatamente o quê? Levando para que lado?
Por exemplo, se vão falar de adoção de crianças por homossexuais, a pauta é favorável aos homossexuais? Se não houver uma declaração explícita da produção de que a pauta será favorável a nós, se ficarem enrolando com coisas como “vai ter um debate”, “queremos polêmica”, eis a dica para recusar participar. É legal explicar inclusive por que motivo estamos negando ir, como “eu tenho uma postura séria em relação à homossexualidade, não quero ser atração de circo”, ou “eu prezo muito meu casamento, não quero expô-lo a polêmicas carnavalescas”.

• Perguntar quem mais vai. Se a resposta for vaga, como “um grupo de homossexuais”, ou se houver convidados de opiniões muito homofóbicas, ou que adoram dizer besteira só para aparecer, hora de recusar. A gente também pode dizer quem é persona non grata de nosso grupo, porque os jornalistas prestam atenção nesse tipo de informação.

• Perguntar se o apresentador ou apresentadora vai dar tempo para falarmos do que nos interessa, como por exemplo um livro que tenhamos lançado ou uma campanha de direitos humanos que estejamos promovendo. Se a produção insiste que não pode dar telefone nem nome de nada no ar ou no rodapé do artigo, mais um argumento para recusarmos.
Claro que a gente deve manter uma postura de negociação, tipo “vocês querem que eu apareça com a minha namorada, eu quero que vocês divulguem minha peça sobre lesbianismo. Como vai ser?”

• Perguntar qual é o tempo dedicado ao assunto. Se vão colocar trinta pessoas para falar em quinze minutos, mesmo com toda a boa vontade da produção é completamente idiótico participar. Não tem resultado nenhum, só cansa.

• Adotar uma postura de igualdade perante a mídia. Quando eles nos abordam, querem algo de nós. Podemos nessa hora exigir algo em troca ou simplesmente recusar dar-lhes o que querem. Se formos firmes e explicarmos o que realmente desejamos divulgar, o que nos interessa comentar, eles até podem criar pautas futuras que nos ajudem.

Laura Bacellar é editora de livros, responsável pela primeira editora lésbica do Brasil, a Malagueta www.editoramalagueta.com.br , autora de O mercado gls (São Paulo, Ed. Ideia e Ação, 2009) e responsável pelo site dirigido a autores iniciantes www.escrevaseulivro.com.br

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