Por Gilson Pinto Gil
“...O ano de 1832 tinha começado com um aspecto de iminência e de ameaça...a doença política e a doença social declarando-se ao mesmo tempo nas duas capitais do reino; uma, a cidade do pensamento, outra, a cidade do trabalho; em Paris, a guerra civil, em Lion, a guerra servil; nas duas cidades o mesmo clarão de fornalha, uma púrpura de cratera na fronte do povo.” (Victor Hugo. Os Miseráveis)
O aniversário de Manaus traz, de novo, a reflexão sobre os caminhos que a metrópole está tomando e/ou deve seguir. Muitas novidades estão chegando: Avenida do Turismo, viadutos e ponte do Rio Negro, só para começar. Porém, uma questão mais profunda ainda permanece: qual o rumo de seu crescimento?
Manaus atrai milhares de novos moradores todos os anos, tanto do interior como de outros estados. As demandas aumentam ano a ano. Prefeitura e governo estadual têm que se desdobrar, pois as necessidades crescem infinitamente, enquanto os recursos são finitos. A prática assistencialista possui limitações. Doar bolsas, auxílios, bandejões e similares possui limites claros, os limites do erário e do endividamento público.
Criar formas de desenvolvimento que aumentem as oportunidades de emprego, sem que o Estado crie diretamente vagas públicas, é um desafio. Não é possível deixar os governos e os impostos crescerem mais e mais. É necessário deixar crescer a iniciativa privada e fomentar o progresso do mercado, liberando-o de possíveis tutelas políticas. É difícil pensar nisso onde o modelo econômico vigente é essencialmente o do “capitalismo politicamente orientado” (Max Weber, História Econômica Ocidental). É o Estado (prefeitura, governo estadual e União) que comanda a economia no modelo Zona Franca, eterno dependente dos favores e prebendas oficiais. Redefinir essa relação Estado X Mercado é fundamental para Manaus e o Amazonas.
Isso tudo para que Manaus não seja uma cidade da segregação, onde condomínios fechados isolem-se da vida dos bairros. Revitalizar o centro, sem aumentar a circulação de carros, é um desafio. Descentralizar a economia metropolitana, conferindo vida às localidades afastadas das zonas norte e leste é outro desafio. Criar rotas alternativas de transporte, seja por hidrovia, ciclovia ou trens, é outro dilema central dos governantes de Manaus. Não há razão para esperarmos a copa de 2014. Essas questões já precisam estar resolvidas até lá.
Falar em reforma urbana é falar em reduzir o “déficit de urbanidade no país” (Grazia de Grazia. Reforma urbana e estatuto da cidade). Integrar ações sobre desenvolvimento urbano e planejamento territorial é uma prioridade dos governos e da própria sociedade civil.
Enfim, a Manaus de 2014 já está sendo construída hoje. Contudo, é preciso fazer com que essa construção tenha rumos delimitados, que as surpresas sejam as menores possíveis. Qualidade de vida e cidadania são coisas que podem ser edificadas cotidianamente, seja por lutas políticas, seja por movimentos de engenharia institucional ou medidas de gerenciamento. Parabéns, Manaus.