Fundação Verde Herbert Daniel

Nesta entrevista, Alfredo Sirkis – ex-presidente do Partido Verde e o vereador mais votado do Rio de Janeiro em 2008 – fala sobre alternativas para o transporte urbano, como o estímulo às bikes, Protocolo de Kyoto e sustentabilidade nas cidades. Acompanhe a entrevista concedida ao site da Fundação Verde Herbert Daniel.

Sustentabilidade nas cidades

Site FVHD – Alguns autores têm tratado a questão da sustentabilidade urbana como um ideal a ser atingido no futuro. Você vê a possibilidade dessa ser uma questão objetiva, com programa e ações concretas?
Sirkis – As questões de sustentabilidade urbana são um desafio do presente, do daqui e agora. Têm implicações práticas e imediatas nas políticas dos governos locais e em políticas nacionais que lhes possam dar suporte.

Site FVHD – Você vê alguma alteração na mentalidade da iniciativa privada, do capital imobiliário do Rio e São Paulo? Seja por força do interesse dos consumidores, seja por outros motivos, já há a incorporação das questões ambientais?
Sirkis – Vem havendo uma evolução gradual, desde a Conferência Rio-92 – que vejo como um marco no início de mudança de mentalidade do empresariado. No ramo imobiliário, muitas empresas já têm isso incorporado. Preocupam-se em criar uma imagem institucional sensível à questão ambiental e já perceberam que seus produtos devem incorporar esses valores. Não penso que seja apenas uma questão de marketing.

Site FVHD – Como você vê a possibilidade de utilizar as bacias hidrográficas como bases territoriais para o planejamento urbano?
Sirkis – No caso, seria planejamento regional ou metropolitano integrados. As bacias hidrográficas abrangem territórios mais vastos que os centros urbanos.

Site FVHD – Muitos filmes e a literatura de ficção têm culpado o homem pelas mazelas do mundo. Mas sempre mostram uma reinvenção e reconstrução. Até que ponto isso seria possível?
Sirkis – É um processo repetido de destruição e reconstrução com avanços e retrocessos. Por exemplo: a Europa hoje está muito mais arborizada que no início do século passado. Mas temos duas ameaças potenciais que, eventualmente, não poderiam ser revertidas. São as mudanças climáticas e guerras nucleares em grande escala.

Site FVHD – Como você avalia a política ambiental de Barack Obama, o novo presidente americano? Acredita que será decisiva para o mundo?
Sirkis – Acredito que sim. Os Estados Unidos são (ainda são) o país mais influente do mundo e essa mudança profunda do negacionismo climático de George Bush a uma participação ativa global que se esboça com Obama é o acontecimento mais positivo que aconteceu no planeta há muitos anos.

Transporte urbano

Site FVHD – Em sua opinião, qual a melhor solução para o transporte urbano nas grandes cidades?
Sirkis – Não há uma solução. Há uma combinação de soluções que varia de cidade para a cidade mas que, geralmente, engloba: transporte de massas sobre trilhos; os VLTs, bondes modernos; a racionalização dos serviços de ônibus (veículos articulados de alta capacidade em pistas exclusivas); algum grau de desestímulo ao transporte individual e ao uso solitário do automóvel; sistemas cicloviários integrados, além de transporte hidroviário nas cidades marítimas e fluviais. A isso se somam ações indiretas, como normas urbanísticas que estimulem a redução da demanda sobre o transporte ao instituir em bairros de usos múltiplos; bairros mais amigáveis ao pedestre; revolução tecnológica, que estimule o trabalho em domicílio e pela internet, e políticas de emprego que valorizem a contratação de pessoas que residam próximo do local de trabalho.

Site FVHD – Você defende a implantação de ciclovias. Mas como modificar a mentalidade da população para respeitar os ciclistas?
Sirkis – Com campanhas educativas, regras de coexistência, entre condutores de veículos motorizados, ciclistas e pedestres, além de um policiamento capaz de fazer valê-las.

Site FVHD – Essa seria uma opção em cidades poluídas e com trânsito caótico como São Paulo?
Sirkis – São Paulo e qualquer outra.

Site FVHD – Muitos especialistas asseguram que a saída do transporte urbano é subterrânea (está no metrô). O que você acha disso?
Sirkis – Se os recursos fossem abundantes e as nossas cidades tivessem as características das cidades do início do século XX, quando começaram a ser implantados os sistemas de metrô que se consagraram – como o de Paris, por exemplo –, seria indicado e plausível. Penso que é preciso expandir as linhas de metrô de nossas cidades mas que isso, por si só, será insuficiente.

Site FVHD – Até que ponto a carona solidária é efetiva na redução do trânsito nas grandes cidades?
Sirkis – É uma dentre muitas ações e deve ter um estímulo material com descontos em pedágios.

Site FVHD – Que projetos deveriam ser implantados em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro para acabar com o trânsito?
Sirkis – Melhorar a qualidade do transporte de massas sobre trilhos e dos ônibus é um pré-requisito, mas penso que deve haver restrição ao transporte individual. Pessoalmente, acho o pedágio urbano em zonas altamente congestionadas, nos moldes de Londres, mais eficaz do que o rodízio. Penso que o automobilista deve ter liberdade para ir a qualquer lugar, mas deve pagar por isso um preço crescente relacionado a uma taxa de “congestão” ou de engarrafamento.

Site FVHD – Há exemplos de países que adotaram as ciclovias e são exemplos positivos, que podem ser seguidos ou adaptados ao modelo brasileiro?
Sirkis – Quando iniciei o desenvolvimento do sistema cicloviário carioca, usei como modelo o de Amsterdam. Ainda acho que é a cidade com mais lições a nos oferecer.

Site FVHD – Em muitos países, como a Suíça, é possível alugar bicicletas nas estações de metrô e, assim, prosseguir seu trajeto de bike, sendo uma alternativa para longas distâncias. Você acredita que essa seria opção para o Brasil? Em caso positivo, que ajustes seriam necessários?
Sirkis – Penso que isso é bom e que pode ser aplicado aqui.

Protocolo de Kyoto

Site FVHD – Como deve ser o diálogo entre o governo e a iniciativa privada para que o Protocolo de Kyoto possa ser aplicado de fato?
Sirkis – Penso que não será mais o protocolo de Kyoto, mas as novas regras a serem criadas, em princípio, no final do ano, em Copenhagen com vistas a 2012. O diálogo gira em torno de como reduzir emissões. No Brasil, isso significa, em mais de 70%, reduzir a devastação da Amazônia.

Site FVHD – Você acredita que o governo Obama irá tratar com mais responsabilidade que o governo George W. Bush os impactos da crise ambiental e climática?
Sirkis – Estou seguro que sim.

Site FVHD – Em sua opinião, o Brasil avançou de alguma forma no combate ao aquecimento global? O que ainda precisa ser feito?
Sirkis – Avançou a partir da Conferência de Bali, no final de 2007, quando admitiu, pela primeira vez, fixar objetivos de redução de emissões, algo que não aceitava anteriormente.

Site FVHD – E, com relação a outros países, como estão estas políticas?
Sirkis – Avançou-se muito nos Estados Unidos, por enquanto em termos de discurso, e o decisivo é a China, a maior emissora atualmente.

Site FVHD – Diante da crise ambiental, que novo clima está a caminho?
Sirkis – Ninguém sabe ao certo. Há margem para otimismo. Além disso, a própria crise econômica permite ganhar algum tempo.

Site FVHD – Com a adesão dos países ao Protocolo de Kyoto, em 2005, os especialistas apostavam na possibilidade do carbono se tornar uma moeda de troca. Isso realmente aconteceu?
Sirkis – Penso que o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo e outras formas de associar o mercado mostram certo potencial. Mas isso terá que ser aperfeiçoado consideravelmente.

Site FVHD – Especialistas defendem que o sistema de créditos de carbono favorece o mercado e não propriamente o meio ambiente como se propõe, pois os dá aos países poluidores o direito de continuar poluindo se pagarem pelos créditos que, a priori, possuem cota de compra limitada. Você concorda com essa análise?
Sirkis – Não porque a emissão de gases de efeito estufa é global e qualquer redução em qualquer país contribui da mesma maneira. Se cortamos “x” toneladas de CO² ou metano no Brasil, na China ou nos Estados Unidos, não faz diferença. A questão é contarmos com um sistema de contabilização que seja de fato confiável.

Exibições: 0

Responder esta

© 2012   Criado por Administrador FVHD.

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço