Zysman Neiman
Em editorial do dia 06/02/07 (A esperança no engenho humano), o jornal O Estado de São Paulo afirmou que todas as questões ambientais sempre foram tratadas com uma enorme dose de alarmismo pelos ambientalistas radicais que, de tanto anunciar o fim do mundo, perderam a oportunidade de liderar o que o jornal chamou de “uma saudável mudança de hábitos e de modelos de desenvolvimento econômico”. O texto se coaduna com a opinião de muitas pessoas, cuja posição de incredulidade em relação à gravidade do problema e ao alarde feito sobre eles pelos ambientalistas é notório.
O editorial de O Estado de São Paulo aponta (aliás, como a maioria daqueles que se negam a compreender que há uma lógica no discurso ambientalista) que o movimento ambientalista nada faz além de defender o “estancamento do progresso científico e tecnológico” e a “volta ao passado pré-industrial”, apelos que, segundo o jornal, ninguém toleraria (como se a opinião pública não fosse modelada aos sabores e interesses de uma determinada ideologia e grupo social dominante), e que esta estratégia alienou consideravelmente a opinião pública mundial (puxa, foram os ambientalistas que realizaram esta proeza?).
Numa tentativa de desqualificar o quarto relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, sigla em inglês) há quem acredite que toda hipótese científica é falsificável e, adotar a hipótese do aquecimento global como verdade comprovada é uma atitude mística, não-científica. O próprio editorial de O Estado afirma que o IPCC incorre no mesmo equívoco histórico dos ambientalistas (começam aqui as confusões: mesmo admitindo-se que alguns membros da sociedade, felizmente, desempenham esses dois papéis, o editorial confunde “ambientalistas” com “cientistas”), ou seja, nada apresenta de novo, “que não se soubesse há tempos” (mas isso parece ser um mérito dos ambientalistas que sempre divulgaram esta questão!).
Ora... Se como afirma o jornal “na história real da humanidade, irreversível é só o passado”, como explicar que os problemas ambientais, mesmo diante do enorme avanço tecnológico, só fizeram agravar? Ou será que o desmatamento da Amazônia, a atmosfera poluída das cidades, a degradação dos solos e desertificação de imensos territórios é “lenda” inventada por catastrofistas de plantão? Será que vale perguntar “o que é que importa nesta questão: a natureza ou o homem? Incrível como ainda há pessoas inteligentes neste planeta que acreditam que não há ligação entre “natureza” e “homem”. Continuarão acreditando que um planeta sem “ursos polares” será igual para o ser humano do que o que temos hoje, onde a biodiversidade só tem valor econômico? Como mensurar seu valor intrínseco e o enorme serviço que presta ao espírito humano simplesmente pelo fato de sabê-la existir?
Concordamos com o editorial de O Estado, quando aponta que “o presente e o futuro são construídos pelo homem graças às características que o fazem uma espécie única: a vontade de progredir”, mas queremos perguntar: que progresso é esse que supostamente desejamos? Vale a lógica para o qual não se deve interromper o desenvolvimento mas, ao contrário, construir diques, caso as inundações advindas da elevação do nível dos mares se concretizem? É o caso, como propõe, de avaliarmos o risco e fazermos um “bom seguro”?
O jornal O Estado comete um grande equívoco quando afirma que “a maior parte da humanidade vive hoje em condições que há cem anos não eram sonhadas nem mesmo para a maioria dos habitantes dos países mais desenvolvidos daquela época.” Se o sentido da afirmação era para louvar a melhoria da qualidade de vida da humanidade, há que se destacar que, conforme diversos dados divulgados freqüentemente pela ONU, a grande maioria da humanidade passa fome, e sofre com epidemias e guerras que parecem infindáveis. Estimativas da FAO - o programa da ONU para agricultura e alimentação apontam que mais de 850 milhões de pessoas em todo o mundo se subalimentam. E o aumento absoluto de 180 milhões de pessoas em uma década é generalizado nas regiões em desenvolvimento, com exceção da América Latina e do Caribe, onde foi registrada uma pequena baixa.
Enquanto isso, a propalada e divinizada “tecnologia” parece só ter trazido benefícios aos detentores do poder econômico. Se a capacidade de produção, tanto da indústria como da agricultura, é maior do que a necessidade de consumo (assim afirma o editorial de O Estado), porque ainda há tanta fome e miséria no mundo?
O mais controverso, no entanto, no referido editorial é a confiança excessiva no progresso da ciência. “Mobilizado, o espírito humano enfrentará o desafio de domar as forças que ele mesmo ajudou a desencadear”. Por que faria isso no futuro se até o presente isso não se concretizou? Por que apesar desse progresso os problemas só agravam? Qual o problema de assumirmos o princípio da precaução com relação aos problemas apontados pelos ambientalistas? Quem perde com a adoção de medidas que visam desenvolver fontes alternativas de energia, produção de alimentos mais saudáveis, meios de transporte coletivos eficientes e hábitos individuais de consumos menos predatórios?
Os ambientalistas e cientistas não estão propondo nada que não seja possível. Não pregam a volta à "idade das pedras", apenas incentivam as boas políticas que direcionem a sociedade à sustentabilidade. E algumas vitórias (e alternativas viáveis e simples) já se concretizam pelo mundo. Vejamos alguns exemplos bem concretos:
1) Autoridades chilenas instruíram os funcionários públicos a não usarem paletó e gravata, para que os escritórios possam poupar energia no ar condicionado;
2) Prefeitura de São Paulo cria o Grupo Executivo Pró-Ciclista, para estudar o fomento do uso da bicicleta, para o qual o Banco Mundial prometeu liberar recursos através de um programa destinado a diminuição da poluição do ar, e incentivo ao transporte não motorizado;
3) Conselho Global de Energia Eólica (GWEC) lança o relatório Wind Force 12, um projeto da indústria eólica que descreve como o poder do vento pode fornecer 12% da eletricidade mundial até 2020.
Se o editorial de O Estado acredita tanto que a ciência resolverá os problemas ambientais apontados, porque em seu texto desqualifica justamente o mais importante relatório científico sobre os mesmos? Afinal, confia ou não confia na ciência? Ou só quando isso lhes é conveniente?
É verdade que a climatologia tem algum grau de incerteza, mas esse é um atributo de toda a ciência é mais um motivo para não acreditarmos cegamente num futuro onde todos os problemas ambientais possam por ela ser resolvidos. Esse é o mito que precisamos combater!
Vale afirmar, para concluir, que boa parte dos chamados "ambientalistas" também estão preocupados e não concordam com as estratégias e o tom alarmista com que a questão ambiental vem sendo tratada. Mas nem por isso deixam de estar atentos ao problema, como se, por conta disso, ele simplesmente não existisse. Vale a premissa de que encontrar soluções só será possível se admitirmos que alguma verdade pode haver nos prognósticos que, cada vez mais se coadunam na mesma direção: a mudança dos paradigmas da sociedade contemporânea sem o abandono da qualidade de vida que a humanidade sempre almejou, mas da qual pode estar cada vez mais distante.
Nota
Zysman Neiman
Professor da Universidade de São Carlos (UFSCar)
Diretor Presidente do Instituto Physis – Cultura & Ambiente
Autor de diversos livros sobre a questão ambiental.
e-mail: zysman@physis.org.br