Por Gilberto Abreu, professor, sociólogo, Doutor em Educação pela Unicamp e vereador em segundo mandato pelo PV de Ribeirão Preto.
O Pensamento no Período de Transição:
O historiador Pierre Vilar informa-nos, a respeito do período de transição do feudalismo para o do capitalismo, que os momentos de crise de uma “ordem” geram conflitos entre o estabelecido e as forças que tentam alterá-lo. Ao contrário do que normalmente se pensa, essa gestação, normalmente, dura largos tempos. O velho tentando manter-se e o novo em incessante luta para substituí-lo. Ele afirma:
“A cada modo de produção corresponde não somente um sistema de relações de produção, como um também um sistema de direito, de instituições e de formas de pensamento. Um regime social em decadência serve-se precisamente deste direito, dessas instituições e desses pensamentos já adquiridos, para opor-se com todas as suas forças às inovações que ameaçam sua existência. Isto provoca a luta das novas classes, das classes ascendentes, contra as classes dirigentes que ainda acham-se no poder e determina o caráter revolucionário da ação e do pensamento que animam estas lutas". ( Vilar,1975, p.47 )
Quando do referido período de transição, a “rejeição das idéias, da imagem do universo e das maneiras de pensar feudais gerou um certo vazio intelectual”. Numa primeira fase, muitos dos problemas levantados ficaram sem resposta, o que permitiu uma onda de credulidade cega, de superstições grosseiras, de crença irracional na magia. Mas, por outro lado, desatou processos de descoberta e de curiosidade permanentes, desmoronando, pouco a pouco, a estática concepção da síntese aristotélica.
Na nova visão de mundo, substituindo a visão medieval, o homem torna-se a preocupação central. As relações Deus-homem vão sendo substituídas pelas relações homem-natureza. É valorizada a capacidade do homem de conhecer e transformar a realidade. As novas forças sociais impulsionaram as mudanças. A ascensão da burguesia favorece o desencadeamento de inovações técnicas, em função de necessidades práticas de acumulação.
A contraposição de valores nesse período ( antropocentrismo e teocentrismo; fé e razão; ciência contemplativa e ciência prática ) significou a tradução de lutas de camadas sociais antagônicas pelo poder. A burguesia interessava por minar o poder e a influência da principal instituição da ordem antiga, a Igreja, que, por sua vez, detinha imensas riquezas e interesses a defender. Esse confronto esteve na origem da Reforma Protestante, onde os interesses dos reis se confrontavam com os do Papa; os nobres também a viram com simpatia pelo interesse nas riquezas eclesiásticas e até os mais humildes, os camponeses, que queriam ver-se libertos da servidão.
A Igreja reorganizou-se por meio da Contra-Reforma. A Companhia de Jesus torna-se a expressão máxima de defesa dos valores tradicionais, e a Inquisição, a terrível arma de controle de corações e mentes. Mas, agora, o alvo preferencial dos processos inquisitoriais deixava de ser feiticeiros e bruxos, hereges e magos, mas os sábios, os investigadores dos processos naturais, os agentes do desmoronamento da visão estática proposta por Aristóteles e incorporada, por reinterpretação, pelos teólogos medievais, notadamente Tomaz de Aquino.
A revolução, iniciada por Copérnico, Kepler, é completada por Galileu e Newton que perceberam as dimensões matemáticas e geométricas dos fenômenos da natureza e propuseram leis do movimento, leis essas mecânicas como nos informa Koiré:
“A dissolução do Cosmo significa a destruição de uma idéia, a idéia de um mundo de estrutura finita, hierarquicamente ordenado, de um mundo qualitativamente diferenciado do ponto de vista ontológico. Essa idéia é substituída pela idéia de um Universo aberto, indefinido e até infinito, unificado e governado pelas mesmas leis universais, um universo no qual todas as coisas pertencem ao mesmo nível do Ser, contrariamente à concepção tradicional que distinguia e opunha dois mundos do Céu e da Terra.” ( Koiré, 1982, p.155 )
Nesse contexto de agitadas disputas ocorre o rompimento com as idéias e concepções medievais. Quebra-se a confiança nas velhas fórmulas de produção e obtenção do conhecimento. É quando surgem duas propostas metodológicas diferentes: o do empirismo de Bacon, e o racionalismo, de Descartes.
René Descartes ( 1596-1650 ) será um dos precurssores da ciência moderna. Preocupando-se com as leis do movimento e tratando a natureza, incluindo o corpo do próprio homem, segundo o modelo mecanicista, buscou um caminho novo, um novo método que permitisse a superação das incertezas. A sua “dúvida metódica” tornou-se um dos pilares da nova forma de buscar o conhecimento.
Essa lógica fundadora da Modernidade precisa ser repensada. Ou estaremos todos, como sempre esteve o Brasil, em uma transição intransitiva?