Fundação Verde Herbert Daniel

Laura Bacellar

Montamos o estande das Edições GLS na Bienal do Livro de São Paulo em 1998 com uma certa apreensão. O selo editorial, que fazia parte do grupo Summus, estava se arriscando não só em lançar os primeiros títulos brasileiros com a palavra “gay” na capa – comecei o catálogo com Tornar-se gay, de Richard Isay – como em ir lá exibi-los como se fossem a coisa mais natural do mundo. Discutimos bastante se faríamos um estande aberto ou fechado, optando por uma espécie de biombo na entrada por imaginarmos que algumas pessoas ficariam desconfortáveis de serem vistas lá dentro.

Acho que milhares de pessoas entraram só para ver o que tinha atrás do tal biombo decorado com uma bandeira enorme do arco-íris, imaginando encontrar de tudo. A cara de susto ao encontrarem apenas livros nos fazia rir muito. Mas eram livros ousados para a época, tinha também quem ficasse espantado: Sexo entre mulheres falava disso mesmo com todas as letras, O que a Bíblia realmente diz sobre a homossexualidade foi o primeiro livro a conciliar religião e minorias sexuais no Brasil, nosso bestseller naquele primeiro ano. Aliás, trabalhar na GLS me fez ser pioneira quase sem querer, porque o meu posicionamento era diferente de tudo o que tinha acontecido no mercado até então. Eu queria livros claros, explícitos, enquanto todo mundo dizia que o caminho era a dubiedade, esconder-se em jogos de palavras. Chutei o balde já na escolha do nome da editora, o que fez muitos livreiros torcerem o nariz. E fiz questão absoluta de publicar literatura positiva, em que gays e lésbicas não caíssem naqueles clichês horrorosos de nossa tradição literária de sofrerem, se drogarem ou beberem até cair, ficarem solitários e amargos no final ou, pior ainda, se matarem! Eu sempre detestei lésbicas solitárias no final da história e, de tanto bater o pé, acabei publicando o primeiro livro lésbico com finais felizes, o de contos Julieta e Julieta. O público gostou, eu estava certa em insistir.

Foi uma época de efervescência, um monte de gente apostando que finalmente iríamos sair das trevas do preconceito e do machismo que tinham reinado durante a ditadura. O Sérgio Miguez tocou a Futuro Infinito, aquela livraria gay maravilhosa nos Jardins, surgiu o festival Mixbrasil, a revista G apareceu com uma atitude deliciosa de não só dizer a que veio como de colocar o Vampeta nu numa edição! As pessoas se ajudavam, trocavam mailings, divulgavam os negócios umas das outras para criarmos uma nova cultura. E trabalhamos muito para promover a Parada do Orgulho de São Paulo, querendo criar um evento de visibilidade alegre e simpático para as minorias sexuais.

Muita coisa deu certo, muita não deu. A sociedade está mudando, acho que hoje ninguém entenderia o frio na barriga de exibir livros gays num estande. Mas ainda não chegou onde a gente queria, basta olhar em volta. Ainda assim está sendo fascinante ser lésbica e viver nessa época no Brasil, me faz acreditar que mudar a sociedade é possível.

Laura Bacellar é editora de livros, responsável pela primeira editora lésbica do Brasil, a Malagueta www.editoramalagueta.com.br , autora de O mercado gls (São Paulo, Ed. Ideia e Ação, 2009) e responsável pelo site dirigido a autores iniciantes www.escrevaseulivro.com.br

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