Fundação Verde Herbert Daniel

Por Gilberto Abreu, professor, doutor em Educação pela Unicamp, ambientalista e vereador pelo PV de Ribeirão Preto.

19/11/2009

Dez Razões Desesperadas e Um Motivo de Esperança:


PRIMEIRA: o Brasil é um país racista

Desde a nossa origem foi montada uma estrutura social hierarquizada, baseada na escravidão. Quer dizer, na extrema exploração do homem pelo homem. Nunca nos livramos dessa mancha, pois os traços autoritários penetraram na nossa identidade. Os negros jamais foram libertados. Eles foram abandonados à própria sorte. A origem do que conhecemos por “favelas” advém de sua migração para os centros urbanos, desde o final do século XIX. E o que foi feito para evitá-las?

SEGUNDA: o Brasil é um país que discrimina

Decorrência da primeira. A exclusão de grandes parcelas da população se deu em todos os períodos históricos. Nas épocas da Colonização e do Império, a razão óbvia foi a da manutenção do regime escravocrata. E a República que por definição devia incluir, manteve e mantém a exclusão.

TERCEIRA: o Brasil é um país violento

Um dos mitos que criamos a respeito de nós mesmos é o que se refere a um país harmonioso e pacífico, o que nunca ocorreu na realidade. Podemos ter tido e tivemos períodos menos violentos. Por exemplo, na cidade do Rio de Janeiro sempre houve o contraste, mas não havia o que há, hoje, o confronto. As demais cidades, em menor ou menor proporção, a reproduzem.

QUARTA: o Brasil é um país machista

Originários que somos de uma sociedade “patriarcal-patrimonialista”, as funções de mando e de comando sempre foram masculinas. Isso começa a mudar num processo contínuo, mas lento. É outra marca impregnada.

QUINTA: o Brasil é um país corrupto

Sempre foi. Hoje não o é em escala maior. O que vem ocorrendo é que o lento processo de democratização torna as coisas se não transparentes, no mínimo mais visíveis, por conta de instituições sociais como a Imprensa, os órgãos de classe e de movimentos de extração popular e até de grupos éticos da própria elite que, felizmente, também existem.

SEXTA: o Brasil é um país que frauda

A fraude e o embuste sempre tiveram grande aceitação social, desde os extratos sociais mais elevados até os mais humildes. O famoso “jeitinho” que sempre nos caracterizou é um artifício de burlar as regras e os ordenamentos. Devia nos provocar vergonha e não orgulho.

SÉTIMA: o Brasil é um país que sonega

Decorrente da anterior. É outra característica que tem longa história. Remonta à época colonial. Quando chegavam as “ordenações” da Coroa, as pessoas se reuniam não para verificar como elas seriam cumpridas, mas como elas seriam burladas. Diferentemente dos Estados Unidos, país que também teve uma colonização diferente, onde a Lei, a Regra, a Norma, nasciam da experiência da vida social, aqui sempre se pretendeu enquadrar a realidade na Lei, na Regra, na Norma. Razão pela qual a efetividade dos direitos e dos deveres ser maior naquele país que no nosso.

OITAVA: o Brasil é um país devastador

Único país do Mundo que tem o nome de uma árvore, o Brasil nasceu com a sua devastação. Continuada, depois, com a implantação da “maior empresa colonial agrícola da História”, através da agricultura latifundiária e monocultora, como caracterizou o eminente brasileiro, Celso Furtado. Processo que continua sob os nossos olhos complacentes. O Brasil não se coloca sequer entre os vinte maiores emissores de gases de efeito estufa do Mundo. Porém, com as queimadas na região amazônica torna-se o quarto maior emissor. Para quê? Expandir o agro-negócio da soja, do boi e quem sabe agora com o sucesso dos bio-combustíveis, de novo, da cana-de-açúcar.

NONA: o Brasil é um país hipócrita

Dizer “não sei”, “não vi”, “estou chegando agora”, não são expressões próprias de autoridades elevadas. São da maioria. Os negros, os índios, os pobres são maiorias em seu conjunto, mas não são vistos. São invisíveis. A não ser quando incomodam os “bem viventes”.

DÉCIMA: o Brasil é um país desigual

Essa última razão congrega todas as que a antecedem. Dá até a impressão de que ela é “natural”, faz parte da paisagem. O que na realidade sempre fez.
É a nossa marca identitária. Afeiçoamo-nos a ela como a uma máscara que colamos no rosto.

O MOTIVO DE ESPERANÇA: o Brasil é o nosso país

Devemos abandonar de vez a falaciosa idéia de que estamos aqui “de passagem” ou a de que um dia voltaremos à nossa Metrópole. Claro que depois de enriquecidos. Outra marca que o processo colonizador nos deixou. Apesar de todos os pesares. De todos os erros. De todos os caminhos e descaminhos, estamos aqui e aqui vamos permanecer. Então, o que nos resta fazer? Claro está que não é o fato de inventarmos outro país. Ele é o mesmo. É uma realidade física. O que devemos fazer é transformá-lo no país dos nossos sonhos. No país de todos, mas não na forma de slogan publicitário do governo. Dar a ele uma face humana. E quem e somente quem é capaz de tarefa tão hercúlea, tão gigantesca, tão grandiosa. Não única e exclusivamente, mas, sobretudo, o PROFESSOR!
É somente pelo esforço e o labor educacional que podemos alterar os vícios culturais herdados.
É somente pelo esforço e o labor educacional que devemos cultivar a esperança que só viceja quando domina a desesperança... Senão a palavra não teria sentido. Só se espera o que não se tem.
E qual é o agente social capaz de transformar a realidade?
Nenhum outro profissional que se saiba lida com tamanha proporção de força e de ação transformadoras que o PROFESSOR!
Absolutamente correta sob o ponto de vista filosófico, apesar de hipócrita, a expressão que inicia a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América, redigida por Thomas Jefferson: “Todos os homens nascem livres e iguais, em igualdade e direitos e cada qual tem o direito inalienável da procura da felicidade.”
Na verdade, viver é estar infeliz. Mas ninguém pode nos negar o direito da busca da felicidade. Ninguém.
Vamos, então, buscá-la, caros professores...!

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