Por Gilberto Abreu, vereador PV de Ribeirão Preto.
27/11/2009
O clima e ação do homem
“Para eliminar a fome no mundo moderno, é crucial entender a causação das fomes coletivas de um modo amplo, e não apenas em função de algum equilíbrio mecânico entre alimentos e população.” (Amartia Sem)
Exemplos históricos:
Dezenas de relatos históricos nos informam de desastres climáticos que afetaram a vida humana através dos tempos. Extremos climáticos devastadores permeiam a História. Fatos que levam alguns especialistas e outros nem tanto a afirmarem que as mudanças que estamos a assistir são meros fatos naturais que nada tem a ver com a intervenção humana. Alguns podem ser movidos por um ceticismo pessoal. Mas, há outros que devem estar recheando as suas contas bancárias a partir de interesses econômicos irresponsáveis.
Uma tragédia natural:
O conhecido historiador social, Mike Davis, autor de importantes trabalhos sobre Los Angeles e o processo de urbanização dos Estados Unidos lançou, recentemente, um primoroso estudo sobre sub-habitações no mundo, o seu Planeta Favela. O mais importante livro de Mr. Davis, no entanto, é o celebrado estudo Holocaustos Coloniais – Clima, Fome e Imperialismo na Formação do Terceiro Mundo. Nele, demonstra, com uma clareza digna dos grandes investigadores, como o imperialismo ocidental agravou as conseqüências de desastres climáticos. Um conjunto de ações, sobretudo de omissões, pauperizou e destruiu populações inteiras na África, Ásia e América Latina. Fato que contribuiu para acelerar a expansão e a anexação de territórios dando origem ao que o demógrafo Georges Sauvy viria a denominar de Terceiro Mundo. A sua análise histórica parte de um fenômeno natural, o El Nino, ou seja, o aquecimento anormal das águas do Pacífico, ao longo da costa peruana, por onde passa a corrente fria de Humboldt, originária da Antártica. Esse fenômeno ocorre há séculos na época do Natal, provocando efeitos dramáticos nas condições meteorológicas. O professor Davis foca a sua investigação nos eventos ocorridos em 1876-1879 e de 1896-1902. Os primeiros que aconteceram em um planeta já unificado pelo imperialismo dos mercados. Nos inúmeros períodos de seca anteriores, os governantes para salvar os seus dedos entregavam alguns anéis, quer dizer, distribuíam alimentos, proibiam estoques especulativos, baixavam impostos, pois dependiam e se preocupavam com a sobrevivência de seus governados.
Registros históricos da Índia mencionam 17 períodos de fome generalizada em dois mil anos. Porém, em apenas 120 anos de domínio colonial britânico até 1877, aconteceram 31 eventos semelhantes. Os dominadores britânicos se negaram a interferir nos mecanismo de mercado. Uma exceção, a do Governador de Bengala, Richard Temple, que ousou empregar multidões em serviços públicos para que pudessem ter acesso à compra de arroz, mereceu sérias reprimendas administrativas e da imprensa. Foi acusado de fourierismo – de ser um socialista utópico que se metia a salvar vidas. Mais tarde, como Delegado Plenipotenciário, chegou a proibir doações que interferissem nos preços fixados pelo mercado.
Não se sabe quantas pessoas pereceram em trabalhos fatigantes em troca de rações dignas de campos de concentração. As comunicações telegráficas, ao invés de ecoarem os pedidos de ajuda acabaram por interferir na elevação dos preços. As ferrovias e os navios a vapor transportavam alimentos para a Metrópole londrina, não para alimentar os famintos indianos. As exportações da Índia saltaram de 3 para 10 milhões no último quartel do século XIX.
A primeira grande seca no Nordeste brasileiro, exatamente em 1877, levou o Imperador Pedro II a dizer que usaria até a última jóia da Coroa... para salvar os flagelados. Somente no Ceará, segundo um jornalista inglês, de nome Herbert Smith devem ter morrido de fome cerca de 500.000 pessoas, ou seja, a metade da população. Vêm daí as ondas migratórias de nordestinos. Centenas de milhares deles foram levadas para a Amazônia, no ciclo da borracha. Essa procissão de deserdados jamais foi devidamente cuidada. Até hoje.
Holocaustos Coloniais permite estabelecer conexões insuspeitadas aos historiadores. A epopéia de Canudos, liderada pelo carismático Antonio Conselheiro na grande seca de 1896-1902 está associada e tem similitudes com a desesperada reação dos chineses da sociedade dos Punhos da Justa Harmonia, os valorosos boxers que enfrentaram as forças imperialistas que então ocupavam a China. Há, inclusive, um filme famoso 55 Dias em Pequim que escandalosamente mostra a visão ocidental daqueles rebeldes vistos como selvagens e sanguinários.
As duas revoltas tiveram motivações econômicas de sobrevivência em face a calamidades naturais. Ambas movidas por messianismos salvacionistas e reprimidas com elevado grau de violência. O caso brasileiro imortalizado na obra de Euclides da Cunha, Os Sertões.
O laureado Nobel de Economia, o indiano Amartia Sen, demonstrou que o problema não é a falta de alimentos e sim a falta de acesso a eles, por conta dos intocáveis mecanismos de mercado. Dados recentes da ONU nos informam que um sexto da humanidade, cerca de 1 bilhão de pessoas estão em condições de fome permanente ou de consumo de alimentos inferior ao necessário. Escandaloso fenômeno humano, razão de ser e de existir dos estudos do eminente cientista brasileiro, o professor Josué de Castro.
Tragédias naturais, quando ocorrem, são agravadas pela cupidez e a insensibilidade humanas...