04/12/2009
Emissões de gases de efeito estufa
Por Gilberto Abreu, vereador PV Ribeirão Preto, sociólogo, professor e Doutor em Educação pela Unicamp.
Desde o início da Revolução Industrial as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono aumentaram em torno de 25 por cento, por conta da utilização crescente dos chamados combustíveis fósseis: carvão, petróleo e gás, e aumentam na razão de 0,4 por cento ao ano, ou o equivalente a 6 bilhões de toneladas de carbono. A metade dessa cifra gigantesca - presumem os cientistas - é absorvida pelos vegetais e os oceanos, enquanto a outra metade permanece na atmosfera. Em um relatório elaborado pela “Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos” podemos ler que:
“Embora possam existir dúvidas sobre as causas de uma seca ou enchente, não há nenhuma controvérsia sobre alguns fatos básicos de nossa atmosfera. Gases como o vapor de água, o dióxido de carbono, o metano, os clorofluorcarbonos, o ozônio troposférico e o óxido nitroso criam um efeito estufa porque aprisionam o calor perto da superfície terrestre e as concentrações de muitos desses gases estão aumentando na atmosfera. Por causa deste aumento, espera-se que esses gases aprisionem mais energia na superfície e na atmosfera baixa, o que, por sua vez, provocará elevações na temperatura, alterações nos padrões de precipitação e outras mudanças imprevistas no clima do mundo.”
Os diversos modelos de simulações empregados no estudo das possíveis alterações climáticas não conseguem dar conta da extrema complexidade dos fenômenos atmosféricos. A maioria deles, no entanto, detectou um aumento da temperatura terrestre. A continuidade das emissões de gases estufa, em face do crescimento das atividades humanas, acelera o processo. Um mero grau de elevação, afirmam os cientistas, implica numa tremenda quantidade de calor. Se a média atual da temperatura terrestre é de 14 graus, um aumento de 3 graus criaria condições com as quais alguns organismos não conviveram nos últimos l00.000 anos. Caso venha a subir a 4 graus, a Terra ficará mais quente que em qualquer época, desde o período Eoceno, há 40 milhões de anos atrás. Na última glaciação, quando quase toda a América do Norte estava coberta de gelo, a temperatura média da Terra era de apenas 5 graus centígrados mais fria do que hoje. O que se apresenta de uma forma dramática é que a velocidade projetada de aquecimento é de l5 a 40 vezes mais rápida do que os anteriores aquecimentos naturais depois das grandes glaciações. E muito mais veloz do que muitas espécies jamais tiveram de enfrentar. O aquecimento da Terra aumentou em meio grau, somente no século XX.
Sinais de Alerta
Evidências do processo de aquecimento não faltam. O jornalista Ulisses Capozolli, em reportagem publicada pelo jornal Estado, quando da cobertura da reunião de Berlim em l.995, relembra o fato de o cientista polar argentino Rodolfo del Valle ter chorado ao ver sob o seu avião o mar de Wedell, junto à península Antártica, congelado há milhares de anos, ter-se rompido em centenas de icebergs, onde apenas um deles teria uma área equivalente à que possui o principado de Luxemburgo. O fenômeno abriu uma fratura de 70 quilômetros de extensão. Cientistas reunidos na cidade argentina de Ushuaia, a mais austral do Mundo, anunciaram que a plataforma de Larsen havia perdido 4.500 quilômetros quadrados de sua área, desintegrada por efeitos cumulativos de aquecimento atmosférico. A reportagem cita, ainda, as sombrias previsões do professor alemão Klaus Meyer-Abich. Diz-nos o jornalista: Trabalhando com a hipótese de que a concentração de gás carbônico atmosférico poderá dobrar de 2025 a 2050, Meyer-Abich considera que o nível do mar se elevaria de meio metro até 2.050 e atingiria um metro em 2.l00. Nas ilhas Maldivas, que neste cenário será invadida pelo mar, a “montanha” mais alta não supera os 3 metros.”
Com a mudança do clima, os países em desenvolvimento sofrerão muito mais do que os desenvolvidos - prevê o professor - defendendo a idéia de que essas nações devem adotar todas as medidas preventivas possíveis. Entre elas, pressionar os países desenvolvidos a reduzir suas emissões de gás de efeito estufa. O bloco industrializado emite 75% dos 16,5 bilhões de toneladas de gases de origem fóssil. As emissões globais chegam assim a 18,1 bilhões de toneladas, quando se inclui 1,65 de toneladas de gases liberados por mudanças no uso das terras do planeta. Dados atualizados jogam a cifra para além de 20 bilhões.
O citado professor ainda adverte que, dentre todos os países, os mais vulneráveis são os que:
1. dependem mais diretamente da agricultura, setor intimamente relacionado ao clima;
2. não têm autonomia em caso de problemas com a produção de alimentos;
3. já se ressentem de secas ou outras variações climáticas ( como é o caso de inúmeros países africanos e asiáticos );
4. sofrerão inundações com a elevação do nível dos oceanos. Neste último caso estão as ilhas Maldivas, Tuvalu e Kiribati. As cidades costeiras de todo o Mundo, de alguma forma, terão perdas.
Outros efeitos
Dentre outras previsões estão ainda: o aquecimento progressivo deverá deslocar as florestas temperadas para áreas mais próximas dos pólos, nos próximos 50 anos. Regiões situadas no Norte da América e da Rússia, a vegetação poderá deslocar-se de 500 a 600 quilômetros. O descongelamento do permafrost - as zonas polares com água congelada no subsolo - poderá permitir o crescimento de árvores com raízes mais profundas, surgindo florestas de coníferas onde antes havia a cobertura rasteira de musgos e liquens da tundra. Mas, as perdas serão irreparáveis. No Norte da África haverá uma desertificação completa nas franjas de vegetação litorânea, ainda existentes. A atividade agrícola sofrerá um deslocamento de 200 a 300 quilômetros para cada grau a mais na temperatura local. Nas regiões montanhosas prevê-se um avanço de l50 a 200 metros em direção aos cumes. A atual fase interglacial dura há apenas 10.000 anos, o que é um instante em termos geológicos.
Esse conjunto de alterações implicará numa irreversível queda de produtividade dos campos agricultados, um recrudescimento de doenças, aumento desmedido dos períodos de seca e desertificação ainda mais acentuada. A velocidade com que essas mudanças climáticas podem acontecer, segundo os modelos já simulados, todo o ecossistema planetário será reformulado. “Espécies, vegetais e animais, poderão propagar-se sem seus antigos inimigos e barreiras naturais. Em compensação, milhares de formas de vida serão extintas, sem tempo de adaptar-se a mudanças aceleradas. Entre as que deverão desaparecer estão aquelas com grande especialização, geograficamente localizadas ou de reprodução muito lenta. E essa perda de biodiversidade será um patrimônio que jamais poderá ser resgatado.”
Os dados estão lançados. A partir do dia 7 de dezembro Copenhague é aqui!
(mais informações no livro Globalização para quem? e no folheto Como evitar “o dia depois de amanhã”?, ambos do autor deste artigo.)