Fundação Verde Herbert Daniel

Raul Pinho

A criação do Ministério das Cidades em 2003 e a retomada dos investimentos em saneamento básico, desde então, já apresentam os primeiros resultados na melhoria da qualidade de vida e dos indicadores de saúde no Brasil.

O mais recente estudo do País sobre os impactos da falta de saneamento na saúde da população brasileira, terceira etapa da série de pesquisas contratadas pelo Instituto Trata Brasil com a Fundação Getulio Vargas (FGV), revelou uma inversão da curva de incidência de doenças diarréicas e parasitárias na infância – crianças de 1 a 4 anos – que, na última década, apresentou crescimento a taxas anuais da ordem de 4% – e, de 2006 para 2007, caiu 14 pontos porcentuais, confirmando a máxima de que Saneamento é Saúde.

Entre 2003 e 2006, o País investiu anualmente em saneamento aproximadamente R$ 4,5 bilhões e os impactos positivos na saúde já apareceram em 2007. Com a perspectiva de continuidade dos investimentos em patamar equivalente ao que o PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) está destinando ao saneamento – R$ 10 bilhões/ano –, até 2030 poderemos ter o Brasil saneado, livre de indicadores de saúde vexaminosos e de condições indignas e desumanas que hoje são impostas à população de baixa renda, que vive na periferia de nossas metrópoles.

Exemplifico: um dos pilares do movimento de mobilização do Trata Brasil pela universalização do saneamento contempla a conscientização da população que vive em favelas sobre a importância dos serviços de saneamento básico, desenvolvemos durante o ano de 2008 o projeto Trata Brasil na Comunidade Vila Dique, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul.

Nessa área, localizada na cabeceira do aeroporto Salgado Filho, vivem cerca de 1.500 famílias e, apesar de estarem a poucos quilômetros do centro da capital do Estado, ainda vivem em condições da maior precariedade em termos de infraestrutura e não contam nem mesmo com facilidades sanitárias básicas como uma privada!

Algumas famílias se utilizam de saquinhos plásticos à semelhança do que ocorria na cidade do Rio de Janeiro, 200 anos atrás, na época em D. João VI desembarcou no Brasil, como narra Laurentino Gomes no livro 1808. Já Mario Vargas Llosa no artigo “O Cheiro da Pobreza” coloca: “o objeto que representa a civilização e o progresso não é o livro, o telefone, a internet ou a bomba atômica, é a privada”.

É inaceitável que famílias brasileiras ainda vivam em tais condições. É preciso que nossos governos direcionem recursos públicos federais, estaduais e municipais prioritariamente para acabar com esses absurdos. Alardear que o Brasil está no grupo dos 70 países com maior IDH no mundo não encobre a vergonha de termos vizinhos sem privadas em suas residências.

A comunidade da Vila Dique será beneficiada pelas obras do PAC e a partir de 2009 as famílias começarão a ser transferidas para um conjunto habitacional que está sendo construído com toda a infra-estrutura incluindo estação de tratamento de esgotos.

Faz parte da proposta de trabalho do ITB o acompanhamento das obras, com o objetivo de manter a comunidade informada e envolvida para assegurar que a expectativa que essas pessoas têm em relação ao aumento do grau de satisfação com a vida se confirme.

De acordo com a pesquisa pelo ITB, hoje 25% das famílias se dizem felizes, mas quando questionadas sobre como imaginam a satisfação com a vida daqui a cinco anos, esse percentual passa para 70% e essa esperança resulta da perspectiva de saírem do ambiente indigno que hoje ocupam. Os dados completos dessa pesquisa estão disponíveis no site www.tratabrasil.org.br e uma das bandeiras do ITB é lutar para que recursos públicos sejam prioritariamente destinados a acabar com as “Vilas Diques” existentes na maior parte das cidades brasileiras.

Raul Pinho é engenheiro e presidente executivo do Instituto Trata Brasil

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