por Ventura Barbeiro (venturasbarbeiro@ig.com.br)
"O governo brasileiro deve decidir sobre a liberação da soja transgênica cultivada no Rio Grande do Sul ilegalmente, através de contrabando das sementes da Monsanto. Ou proíbe punindo alguns poucos agricultores, ou libera colocando toda a população brasileira sob o risco dos transgênicos.
Mas afinal o que são os transgênicos e quais são estes riscos tão comentados, mas pouco divulgados. Muito estranhamente, corre a falsa informação que não existe nada comprovado cientificamente. Muito pelo contrário, países altamente favoráveis aos transgênicos como Inglaterra, França e Alemanha, diante das comprovações científicas, colocaram sérias restrições ao cultivo experimental e comercialização destes organismos.
As pesquisas com transgenia iniciaram na década de 70 com estudos sobre a forma como uma bactéria causava tumor em plantas. A bactéria injeta uma parte de seu código genético que liga-se ao DNA da planta criando células mutantes. Estas células formam um tumor. As células mutantes da planta passam a roubar nutrientes e enviar para a bactéria.
O gene é responsável por uma função particular de um organismo, como cor do olho, tamanho, resistência ao frio; cada característica de um organismo é codificada por um gene, portanto podemos tratar o código genético como a receita de um ser vivo.
Este mecanismo foi copiado, o trecho de DNA de bactéria chamado Ti (tumor inducing) é usado em biotecnologia para levar os genes de interesse comercial para o organismo alvo.
O termo transgênico foi utilizado pela primeira vez em 1982, por Gordon e Ruddle, designando um animal ou planta cujo código genético sofreu mutação pela adição de um ou mais genes, não importando a proveniência destes.
O novo ser criado em laboratório tem a composição química alterada, pois novas proteínas são produzidas devido a modificação genética. Apesar do organismo modificado ser substancialmente equivalente e ter a mesma aparência externa, muitas novas substâncias são geradas em seu interior.
A produção de uma proteína no interior da célula é uma sequência de reações químicas, envolvendo a decodificação do código genético, a agregação dos componentes das proteínas e finalmente a criação da molécula protéica. Nestes passos intermediários é possível surgir novos produtos químicos, pelas reações entre os componentes secundários do complexo processo de criação de uma molécula protéica.
Isto explica graves acidentes ocorridos com organismos transgênicos.
Em 1980 a indústria japonesa Showa Denko K.K. usou bactéria transgênica para produzir triptofano, um amino-ácido usado como suplemento alimentar. Uma toxina mortal foi produzida devido a alteração no metabolismo interno do microorganismo. A aceleração do processo de criação da molécula de triptofano gerou reações entre substâncias intermediárias criando a toxina mortal. Isto levou a morte nos EUA, onde o produto foi vendido, de 35 pessoas e mais de 1500 ficaram com problemas físicos permanentes.
Outro grave acidente ocorreu quando a empresa Aventis introduziu, em 1998, um milho modificado para produzir a toxina de uma bactéria. Usou uma tecnologia conhecida pela sigla "Bt". O milho, chamado StarLink, foi comercializado mesmo com restrições. Devido a polinização cruzada e mistura nos armazéns, contaminou em torno de 40% da produção de milho norte-americano. Causou graves reações alérgicas em seres humanos devido a presença de uma proteína designada Cry9C. Esta proteína não esta presente em outros milhos com a tecnologia Bt.
Este milho foi liberado com a restrição de ser usado apenas na alimentação animal, mas devido a polinização (cruzamento sexual através do ar) contaminou outras lavouras de milho e na comercialização era misturado ao milho comum. O milho comum misturado com o transgênico perdeu o seu valor de mercado, levando os produtores a grandes prejuízos e vários consumidores a ter reações alérgicas graves. A rede norte-americana Taco Bell e uma associação de produtores de milho processou judicialmente a Aventis por este episódio.
O milho pode fazer o cruzamento sexual através do ar (polinização) com outra planta de milho a uma distância de até 10 quilômetros, dependendo do vento. Ou seja, uma lavoura transgênica contamina todas as plantas naturais em um amplo raio ao seu redor.
"Não existe alternativa científica para um teste toxicológico rigoroso que garanta segurança alimentar para alimentos geneticamente modificados", afirmam os cientistas do Institute of Science in Society.
Um dos grandes impedimentos das mutações induzidas é o silenciamento genético. Os genes inseridos são impedidos de manifestarem-se através de um mecanismo de proteção chamado barreira entre espécies. Este mecanismo existe para impedir que o código genético do alimento ou de microorganismos possa alterar a composição genética de um ser vivo. Imaginem algumas de nossas células cruzando com o DNA da alface de nosso lanche ou com o fungo de uma micose. Este cruzamento não ocorre devido a esta barreira criada ao longo de milhões de anos.
Para romper a barreira entre espécies um conjunto de genes é inserido na planta transgênica junto com o gene de interesse comercial. Especialmente do código genético de um organismo que ataca as nossas células injetando o código genético dele, o vírus. Os alimentos transgênicos não possuem "um gene inserido", o correto é dizer "vários genes de diferentes organismos inserido".
Um dos trechos amplamente usado é o CaMV35S, de um vírus que tem semelhança genética com o vírus do HIV, Leucemia Humana e Hepatite B. Atua como promotor de expressão genética, obrigando o gene de interesse comercial a trabalhar intensamente. Este trecho, por estar presente em praticamente todos os transgênicos, é usado como marcador em analise de transgenia em alimentos.
Em 1997, a equipe do cientista alemão Doerfler demonstrou que este trecho de DNA de vírus, o CaMV35S, passa pela barreira intestinal, entra na corrente sanguínea e liga-se ao código genético de algumas células do consumidor.
Este comportamento foi observado apenas em alimentos transgênicos devido a presença de trechos especiais de DNA geneticamente instável, não encontrado em alimentos naturais. Alguns cientistas têm apontado que o gene promotor derivado do vírus CaMV pode constituir-se em perigo para a saúde, possivelmente perigo de câncer.
Cientistas ligados os PSRAST (Médicos e Cientistas para o uso Responsável da Ciência e Tecnologia) -
www.psrast.org - afirmam: "como este DNA viral pode terminar em nossas células, não podemos considerar sensato aprovar tal comida sem descobrir se é seguro ingerir uma quantidade tão grande deste gene de vírus, como ocorre quando comemos alimentos transgênicos."
O Institute of Science in Society -
www.i-sis.org.uk - criou um manifesto em repudio à liberação dos transgênicos e pela defesa da agricultura orgânica sustentável que conta com a assinatura de 567 cientistas de 69 diferentes países.
Podemos entender agora, com estas informações, a razão pelo repudio tão grande aos alimentos modificados geneticamente e a sua proibição ou fortes restrições aplicados em inúmeros países como China, Rússia, Japão e União Européia.
Podemos entender também a razão da rotulagem, exigido na Europa, da carne do animal que comeu transgênico. O código genético do alimento transgênico é encontrado nos músculos e órgãos internos do animal alimentado com ração geneticamente modificada.
Afinal, com tanta oposição qual a razão de investir tanto na tentativa de liberação destes alimentos, mesmo sem testes de segurança alimentar?
A planta transgênica é considerada um organismo artificial. Por ser criada por um empresa pode ser patenteada. Para plantar um organismo patenteado o agricultor deve pagar o preço da semente e mais uma taxa pelo uso da tecnologia. Devido a contaminação das espécies naturais com os genes dos transgênicos, através da polinização, as plantas naturais contaminadas tornam-se organismos cobertos por uma patente e o agricultor sujeito a ser processado pelo uso da tecnologia.
Mentira enorme essa de aumento de produção, mais nutritivos ou redução do uso de venenos. O objetivo é dominar todos os agricultores do mundo através da patente das plantas cultivadas como o arroz, feijão, trigo, batata. Iniciaram pelas quatro plantas mais cultivadas em todo o mundo: milho, soja, batata e algodão.
A introdução dos transgênicos no Brasil significaria um lucro estimado em bilhões para estas empresas multinacionais. Enquanto esta liberação não acontece, a produção de soja e milho não transgênico coloca o Brasil em grande vantagem no mercado internacional, conseguindo até mesmo incentivos e preços maiores para o nosso produto. O lucro, por enquanto, está ficando com os agricultores brasileiros."
O autor é engenheiro agrônomo, formado pela ESALQ-USP em 1990, já publicou vários artigos sobre o tema Transgênicos e esteve no Monsanto Life Science Center, em S. Lois (EUA), em 1991, onde conheceu a soja Roundup Ready em laboratório, 3 anos antes de ser liberada no meio ambiente, primeiro em Porto Rico, depois dos Estados Unidos.
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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
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Fonte: Relatório Alfa